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	<title>Arquivos LIVROS - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos LIVROS - Roberto Gerin</title>
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		<title>O acontecimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Nov 2022 12:00:51 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>UMA PUNGENTE AUTONARRATIVA</strong></h1>
<p>Em seu romance O ACONTECIMENTO, a escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura em 2022, não camufla a realidade: não esconde os lugares, as datas e as pessoas que fazem parte da trama. A autora dá ao romance a versão não-ficcional de um conturbado enredo vivido por sua personagem. Se é uma autobiografia romanceada, parece não haver dúvida. O que sobra é coragem por parte da autora em dissecar momentos dolorosos de sua vida, permitindo-nos acompanhar todos os movimentos que a levaram à decisão de abortar. Fica-nos a evidência de que ela usou a literatura para colocar as dores no seu devido lugar. E, para que a dor fosse reconhecida como o eixo da existência, Annie Ernaux se propõe a denunciar as estruturas sociais moralistas como algozes implacáveis que afligem, submetem e fragilizam a mulher. No entanto, é essa rede de perversidades que a motiva a seguir adiante. A vida podia ter sido melhor, sim. No entanto, ainda há forças para se refazer ao longo do caminho.</p>
<blockquote>
<h2>Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular.</h2>
</blockquote>
<p>Annie Ernaux não economiza imagens radiografadas em palavras cruas para descrever seus sentimentos de inominável angústia ao se colocar diante do fato consumado. Para retratar este momento, eis como ela descreve o desfecho do aborto: “<em>Choramos silenciosamente. É uma cena sem nome, a vida e a morte ao mesmo tempo. Uma cena de sacrifício</em>”. Esse é o acontecimento.</p>
<p>Fato marcante na literatura de Annie Ernaux é ela não se desgrudar dos imbróglios sociais que determinam sua vivência no mundo. Ela, como pessoa e personagem, é agente do meio, um corpo às vezes descontruído, às vezes com vontades e desejos próprios, que se move por entre estruturas rígidas, necessitando de toda cautela para não esbarrar na dor. Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular. E haverá sempre a necessidade de se superar, de vir à tona, de recomeçar. Não há como, ao se falar de dias vividos num tom de autobiografia sem complacências, não se dobrar à sinceridade e ao espanto.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto.</h2>
</blockquote>
<p>O sonho de dias melhores é um lenitivo para a desesperança. Na próxima esquina, ao virar para outra direção, pode ser que encontre mais luz, mais brilho, mais sol. Sair da penumbra é o desejo que não se apaga. O que nos surpreende é a certeza da protagonista de que só o aborto a libertará das amarras morais que a acorrentam. Vai levar para a vida a amargura da luta insana, mas, ao se sair vitoriosa, o futuro pode ser mais atrativo do que um passado de sofrimentos. Essa é nossa condição de viver: esperar que lá na frente haja o pouso feliz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O fio condutor do relato de vida da protagonista se concentra na sua tentativa desesperada de realizar o aborto. Dentro desta perspectiva angustiante, a possibilidade técnica encontrada pela autora foi se distanciar no tempo. Ela se utiliza das ferramentas da memória e de escritos esparsos para compor a trajetória de angústias de uma jovem universitária de vinte anos que engravida de uma relação insegura, e que se vê, com isso, condenada aos julgamentos da família e da sociedade. Estamos falando da década de 1960, numa França sob os efeitos da ressaca cívica da ocupação nazista. A culpa ainda permeia o esgarçado tecido social, uma época que antecipa os espasmos políticos de 1968. É nesse ambiente de incertezas e opressões que a protagonista, sem muito elaborar sua decisão — mas decidida a abortar —, vai em busca da solução para o problema que se aninha em seu ventre. Fica-nos a impressão de que não é ainda o momento histórico para o rebento vir ao mundo.</p>
<blockquote>
<h2>Ao falar da mulher, <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por homens.</h2>
</blockquote>
<p>Portanto<em>, O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto. Acompanhamos a personagem pelas ruas de Roeun, pelos metrôs e avenidas de Paris, na busca de quem materialize a sua decisão. Ainda um tabu — e um crime —, o aborto só podia ser realizado pelos “anjos da morte”. São mulheres que se utilizam de técnicas heterodoxas, algumas perigosas, outras agressivas ao corpo feminino, para livrar a mulher do incômodo social da gravidez. A técnica abortiva a que se submeteu a protagonista é de arrepiar os neurônios — Annie Ernaux não nos poupa de suas descrições.</p>
<p>Se <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por mulheres que se identificarão com a protagonista, mesmo não tendo passado pelas vicissitudes do aborto, é, acima de tudo, uma narrativa obrigatória para homens. Em um primeiro momento, para conhecerem os sofrimentos da maternidade indesejada, da qual, evidentemente, fazem parte; e, depois, para que se conscientizem de que a prevenção e o cuidado com a parceira são atos humanos indispensáveis numa relação, seja ela duradoura ou passageira. Virar as costas para a inesperada gravidez da parceira é um ato de indesculpável covardia. É deixar a mulher entregue à sorte de encontrar quem a ampare. E este é exatamente o núcleo existencial do romance: desamparada, Annie Ernaux radiografa cada minuto do seu solitário calvário de sofrimentos para se libertar de sua condição de grávida. Ao sair para a vida, livre do feto, há uma outra mulher, machucada, sim, mas liberta.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> celebra a vitória pessoal da autora.</h2>
</blockquote>
<p>A literatura de Annie Ernaux nos surpreende pela racionalidade cirúrgica com que ela traça a realidade em movimento, não poupando ninguém e nada, como se a autora lançasse um olhar vingativo sobre o mundo. Um mundo que lhe foi hostil, em todos os aspectos. Um ser vivente não acolhido pelos sonhos, e que teve que, primeiro, ir atrás de compreender as suas origens, e, depois, tentar se refazer em uma outra estrutura social e econômica, que lhe desse o direito de ser feliz, longe de estruturas furiosas que a agridem e a limitam como ser e como mulher. Dar o salto arriscado para o outro lado do muro social, com o sonho de ser apenas mais uma pessoa normal, foi o que a motivou a superar sua história. Eis a vitória pessoal esculpida neste pungente romance <em>O Acontecimento</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Úrsula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE &#160; Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE</strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques, a realidade de dores do escravizado. Esse hábil jogo de revelar verdades históricas inseridas na concepção romanesca — forma <em>versus</em> conteúdo — alça o romance de Maria Firmina ao <em>status</em> de literatura a serviço da arte e da política. Não tem como dissociar <em>Úrsula</em> de seu tempo histórico. Não à toa, tornou-se uma obra-prima da nossa literatura romântica.</p>
<p>A despeito do inquestionável mérito literário de <em>Úrsula</em>, causa estranhamento o silêncio que envolveu a obra ao longo de quase todo o século XX. Se percorrermos resenhas e discussões literárias, inclusive no âmbito dos bancos escolares, vamos perceber raros momentos em que esse romance, basilar da nossa literatura, foi objeto de apreço e análise. Só nos últimos anos o silêncio vem se quebrando. E o que vemos agora, como justa reparação, é a participação de Maria Firmina como homenageada na 20ª edição da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.</p>
<h2>Não há hoje, na proposta política de combate ao racismo, ignorar <em>Úrsula</em>.</h2>
<p>A escravidão é uma temática espinhosa, que costumamos relegar para páginas menores da nossa história, evidenciando a falta de interesse em colocar fato tão vergonhoso diante dos holofotes. Em tempos atuais, em que o racismo é assunto de discussões sérias, em que a literatura de autoras e autores negros vem ganhando destaque nas mídias especializadas e nas estantes de leitores sedentos por conhecer a realidade social do preto, não há mais como ignorar <em>Úrsula</em>. Tornou-se imperativo festejar Maria Firmina dos Reis, atestando sua importância no surgimento dessa literatura voltada para discutir as questões cotidianas da gente preta.</p>
<p>E todo esse movimento começou lá trás, pelas mãos de Maria Firmina dos Reis, mulher negra e letrada (professora no interior do Maranhão), que insistiu em lutar pelo sonho de se transformar numa escritora publicada. <em>Úrsula</em> vem a lume em 1859, ainda no auge da escola romântica. Mas com um detalhe. Maria Firmina publica seu romance sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, para, só depois, em outras edições de outros escritos seus, assumir corajosamente seu nome de mulher e sua condição de escritora negra. Eis o grande feito: ela não só se torna a primeira mulher a publicar um romance no Brasil como revela ser, esta mulher, negra.</p>
<h2>O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio.</h2>
<p>O enredo gira em torno do amor impossível entre Úrsula e Tancredo. O moçoilo bem-apessoado sofre um acidente de cavalo nas cercanias da fazenda onde Úrsula mora com sua mãe, Luiza B. Túlio, o escravo da fazenda, encontra Tancredo gravemente ferido. Leva-o para a casa de sua senhora, onde o enfermo recebe os cuidados de Úrsula. Como não poderia ser diferente, os dois jovens se apaixonam, com trocas de juras de amor eterno. O enlace é adiado tendo em vista compromissos inadiáveis de Tancredo. A ausência do amante possibilita à autora introduzir, primeiro, as questões da escravidão, e, depois, o vilão da trama.</p>
<h2>Do romance <em>Úrsula</em> emerge uma outra África, a terra da liberdade.</h2>
<p>A grande inovação de Maria Firmina foi dar voz própria aos negros que, apesar de coadjuvantes, têm a potência necessária para ecoar as dores geradas pela escravidão e provocar emoções genuínas no leitor. Reside aqui a alma essencial do romance, quando nos é dada a oportunidade de ouvir a voz da preta Susana. O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio. Ao ser alforriado com o dinheiro presenteado por Tancredo, e decidido a abandonar a fazenda de Luiza B., Túlio vai se despedir de Susana. É a oportunidade que a autora se oferece para falar de tema tão caro a ela: a escravidão e suas dores.</p>
<p>Susana rememora seus dias livres de infância e adolescência vividos na sua mãe-África. Por meio dos relatos de Susana, a autora nos traz uma África diferente, exaltada como a terra da liberdade. É o lugar onde os negros, agora escravizados, eram felizes. Casada, mãe de filhos pequenos, é capturada e transportada para uma terra distante: a terra do sofrimento, a terra da escravidão. É a chaga que o Brasil, visto por meio de sua história oficial, sempre tentou esconder.</p>
<h2><em>Úrsula</em> simboliza a tragédia moral em que se transformou a escravidão.</h2>
<p>O romance ganha fôlego dramático com a introdução do vilão, o agente de sofrimentos e tragédias. É o Comendador, irmão e vizinho de Luiza B. Em um encontro fortuito com a sobrinha Úrsula, o tio se apaixona por ela. É uma paixão incontrolável, que gera um amor egoísta e vingativo. O ódio que o Comendador nutre por sua irmã, Luiza B., por ter esta se casado com um rapaz de origem inferior, fora do círculo social da família, é transferido para Úrsula. A recusa incondicional de Úrsula em se casar com o Comendador, preservando seu amor por Tancredo, coloca em movimento o desfecho trágico previsível. É a partir da construção de conflitos familiares, exacerbados pelo triângulo amoroso — portanto, motivados por paixões soberbas —, que a obra de Maria Firmina vai se desenhar em direção à tragédia romântica.</p>
<p>Maria Firmina, munida de rigoroso estilo, sente-se à vontade para falar daquilo que lhe interessa e que lhe dói na pele. São os frutos doloridos de vivências de mulher negra. Sua capacidade de ir além de si a credenciou para tratar de assuntos de interesse social, trazendo o negro para a ribalta, ao lhe dar voz, sentimentos e memórias. É um jogo concomitante de amor e ódio, de escravidão e liberdade, e, acima de tudo, da consciência de que é nosso direito inalienável podermos usufruir do nosso corpo e da nossa alma. O corpo, na visão de Maria Firmina, foi aprisionado; a alma, jamais. Afinal, ninguém tem o poder de escravizar nossa mente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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</blockquote>
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		<title>O peso do pássaro morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Oct 2022 12:40:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A CURA NÃO EXISTE A protagonista de O PESO DO PÁSSARO MORTO, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A CURA NÃO EXISTE</strong></h1>
<p>A protagonista de <em>O PESO DO PÁSSARO MORTO</em>, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: poderia ter sido evitado? Esta é a questão que se coloca e que se transforma na origem da culpa — por que a vítima não consegue evitar o abuso? Sabendo que não há mais volta, a protagonista se vê obrigada a refazer seu caminho. Vai em busca de um abrigo emocional para se proteger da dor. Decide que não há cura para o que aconteceu. A dor a acompanhará para o resto da vida. Até o último suspiro. Aline Bei até tenta oferecer à sua personagem pequenas redenções. Em vão, pois a história já foi antecipadamente escrita.</p>
<p>Aqui cabe um pequeno parêntesis. Essa é a cruel fatalidade do abuso: o algoz, ao abandonar a cena do crime, deixa inoculado na vítima a semente da culpa.</p>
<blockquote>
<h2>A protagonista de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</h2>
</blockquote>
<p>A estrutura romanesca de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é fielmente cronológica. Numa sequência de idades específicas, a protagonista vai narrando seus movimentos internos, na incessante busca de preencher lacunas existenciais. Ela está disposta a revelar sua história como forma de entendimento, alívio e cura. No entanto, a cada revelação, depara-se com uma perda.</p>
<p>O relato se inicia com fatos ocorridos na vida da protagonista, quando de seus oito anos, depois segue pela adolescência e juventude, até atravessar a vida adulta e chegar aos cinquenta e dois anos. Ao longo de todo esse trajeto, a protagonista busca referenciais que a façam entender por que as coisas teimam em fugir a seu controle. Ela parece percorrer uma vida à mercê de casualidades, indigna que é de tomar as rédeas do próprio destino. Um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</p>
<blockquote>
<h2>O estupro é uma violência revestida do poder absoluto.</h2>
</blockquote>
<p>Criança tímida, com baixa autoestima, socialmente deslocada e vítima constante de <em>bullyings</em>, a protagonista constrói para si uma sólida amizade com sua colega de escola, Carla. O fator determinante que irá moldar sua alma sensível de menina solitária será a perda da amiga, vítima de ataque de cão feroz. A morte de Carla vai prepará-la para uma existência de desencontros. É desta maneira que a narradora relata, numa moldura poética contagiante, sua dor diante da morte da amiga: “&#8230; <em>pelo pescoço subiu um grosso de choro que eu não deixei chegar no olho</em>”.</p>
<p>A autora, ao construir uma identidade dolorosa para sua personagem, vai moldá-la do ponto de vista de sua construção, de forma a preparar sua ação máxima e contundente, que está por acontecer logo adiante, aos dezessete anos. A personagem transforma-se em receptáculo da própria dor, ao se ver indefesa diante da inesperada agressão. As mãos que cinzelariam para sempre o sofrimento em seu corpo são as mesmas mãos que ela tanto se comprazia em afagar. O estupro não é um ato fortuito, que a vítima poderia muito bem evitar. Essa é a inaceitável falácia. O estupro é uma violência revestida do poder absoluto, porque exercido por animalesca maldade.</p>
<blockquote>
<h2>Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre mãe e filho.</h2>
</blockquote>
<p>A partir da gravidez decorrente do ato vil, vamos presenciar a protagonista levando uma vida a esmo, carente de significados. Ela se engaja numa luta surda entre amar ou rejeitar o filho. Vê-se incapaz de estabelecer uma relação de afetos concretos, portanto, duradouros. É aqui que reside a base dramática da narrativa: quer amar o filho, mas seu corpo e sua alma o rejeitam. E ela se submete a essa rejeição, sem conseguir vencê-la racionalmente.</p>
<p>Para estabilizar a frágil relação entre mãe e filho, surge na trama a vizinha, Bete, contratada pela protagonista para cuidar do filho enquanto trabalha. É por meio de Bete que a mãe camufla sua incapacidade de expressar amor materno. Bete, essa mulher “<em>gorda por dentro e por fora</em>”, vem suprir os afetos que ela não tem condições de oferecer. Como ela própria reconhece, Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre ela e o filho.</p>
<blockquote>
<h2>O tapa na cara que a mãe dá no filho será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, com a morte precoce de Bete, a protagonista se vê frente a frente com a realidade chamada “filho”. Não há mais como disfarçar. A ruptura está desenhada, pronta para acontecer a qualquer momento, emoldurada em uma ação impulsiva. O tapa na cara que ela dá no filho, por ter este matado um passarinho, será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida. E que abrirá espaço para que a dor estruturante (o estupro) se manifeste em toda a sua complexa intensidade.</p>
<p>Ao ser estuprada pelo próprio namorado e, desse ato, ter engravidado, ela toma a decisão de não abortar. Na confusão de afetos e desilusões, estava convicta de que aceitaria o filho. No entanto, a decisão acaba gerando inadequações emocionais. Quis assumir o filho, não o matou; ao não conseguir assumir o filho, o certo talvez seria tê-lo matado. Mas, como ela mesma reconhece — “<em>não matei</em>”.</p>
<p>A história da protagonista vai se fechando sob o peso de sucessivas desesperanças e de esforços inúteis na tentativa, em vão, de se reconstruir. É a mulher solitária que se tranca dentro de um cotidiano sem pontos de fuga. E a solidão se concretiza com a última ruptura, que se dá quando, a caminho de visitar o filho em Ouro Preto, ao parar para abastecer o carro, acaba acolhendo um cão sarnento. Ao reconhecer no cão a ideia do afeto verdadeiro, dá meia volta e vai viver sua vida com a inseparável companhia do novo amigo. É o derradeiro suspiro: o filho passa a existir apenas em raríssimos (des)encontros protocolares.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, a autora transforma em fábula o que era apenas fragmentos de dor.</h2>
</blockquote>
<p>Aqui se chega ao biombo emocional, atrás do qual a protagonista passa a se esconder. É seu lenitivo existencial. Decididamente, não há cura para a dor que carrega. E, para justificar sua rendição como mulher e mãe, ela reduz sua vivência afetiva à companhia de um cão. E, quando sua última razão de existir se for, ela entende que será o momento de encerrar o triste espetáculo da vida.</p>
<p>Nesse seu romance de estreia, <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, Aline Abei apresenta a vida da protagonista a partir do olhar de quem perscruta sentimentos e emoções com as afiadas ferramentas da sensibilidade poética. Ela se paramenta desse estilo lucidamente encantatório para transformar em fábula o que era apenas fragmentos de dor. Sabemos que o escritor se faz anunciar pelo estilo. Mas o estilo é apenas a forma. Essencial. Só que o estilo tem que fazer chegar ao leitor uma visão emocionalmente inteligível sobre o que o autor sente e pensa. E aqui se faz toda a habilidade de Aline Bei. Sua voz é lúcida e potente, pronta para ser ouvida para além do nosso tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Pequena coreografia do adeus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Sep 2022 12:00:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO O novo romance de Aline Bei, PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado O Peso do Pássaro Morto. Porém, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO</strong></h1>
<p>O novo romance de Aline Bei, <em>PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS</em>, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado <em>O Peso do Pássaro Morto</em>. Porém, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, Aline Bei assume a poética como voz de protesto para retratar a vida de uma menina presa ao abandono afetivo. Esse manejo soberbo da poesia como veículo de emoções e síntese de experiências parece ser apenas um pretexto para a autora esgrimir sua exuberante literatura. No entanto, logo percebemos que sua escrita se alimenta de aguçada sensibilidade para retratar os mais imperceptíveis movimentos que compõem o terrível painel de dores. Aline Bei cria o vazio e nele faz sua protagonista existir.</p>
<blockquote>
<h2>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais.</h2>
</blockquote>
<p>Basicamente, a trama se estrutura no tripé da família tradicional: o pai, a mãe e a filha. Mas há, sem dúvida, nessa tríade, material orgânico de sobra para compor a trama existencial do romance. E Aline Bei dá o tiro fatal no desfecho de sua fábula, ao se dobrar momentaneamente à autocomplacência. No apagar das luzes, depois de tudo o que lhe aconteceu, só resta à protagonista desfraldar a bandeira da compaixão. Em se tratando de ser humano que carrega histórias que o fragilizam, não há como colocar as relações familiares no cadafalso do simples julgamento. A luta perene cansa. Será necessário, em algum momento, depositar as armas.</p>
<p>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais. Diante do rosário de agressividades emocionais e negligências afetivas, ela tenta compreender o que está acontecendo. Busca mudar sua história, construindo um relacionamento possível com a mãe. Mas, a cada fracasso, mergulha na sua pequenez.</p>
<p>Sobra-lhe o pai, de quem se aproxima na esperança de estabelecer compensações de vazios afetivos. Mas também pouco encontra do afeto seguro que busca. E, se encontra, é tão fugaz, que sequer há tempo para desfrutar.</p>
<blockquote>
<h2>É assim que a protagonista de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</h2>
</blockquote>
<p>Resta-lhe insistir na quimera de que as coisas podem, sim, melhorar. Mas suas esperanças são abatidas em pleno voo com a separação dos pais. O pai, ainda um ancoradouro de pequenas afeições, ao abandonar a mãe, acaba se distanciando da filha. Pelo menos, esta é a sensação que toma conta de Júlia. Tudo se desmorona, não há mais com o que sonhar. O único passo a ser dado é ir em direção à vida adulta. É a fuga esperada por anos. Fugir do que ela chama de casa e que jamais será um lar.</p>
<p>A trama de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, de espinha dorsal simples e efetiva, se atém a um relato de vida. Não há tensões narrativas, não há desdobramentos de ações que retroalimentem conflitos, não há armadilhas ao longo do caminho. O que há é apenas o que a própria vida oferece.</p>
<p>Ao se limitar ao cotidiano de uma menina que se reflete nas ações dos adultos como espelho de busca de si mesma, a autora nos disponibiliza a visão sensível da dor do abandono sistemático. É assim que a protagonista se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</p>
<blockquote>
<h2><em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se despedir.</h2>
</blockquote>
<p>Nesse sentido, para entender o que acontece, Júlia se utiliza da poderosa voz poética — que a autora tão generosamente lhe oferece — como arma de grito, como ponto de compreensão. À sua maneira, Júlia procura mitigar as dores do fracasso cotidiano. Recusa-se a entrar na fria câmara da desesperança. Vai desenvolvendo a consciência de que a dor, acariciada pela poesia, será sua companheira inseparável.</p>
<p>A questão que se coloca é muito simples. O que uma criança indefesa pode fazer em favor de si mesma? Qual sua capacidade de mudar o destino que lhe é imposto por erros alheios? Parece não haver escolhas para Júlia. Nem em sonhos. Diante da perversa frieza da mãe e da autoindulgência do pai, não há pedras disponíveis para refazer o caminho. A família já está constituída na sua dinâmica destrutiva, tendo no centro da centrífuga emocional uma criança desamparada.</p>
<p>À medida que a narrativa avança, fica claro que Júlia vai desistindo da mãe. No entanto, ela reluta — posto que não se abandona impunemente uma mãe, seja quem ela for. Nesse diapasão emocional, sempre caberá um pequeno espaço para novas tentativas. <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se concretizar, mas que, sabe-se, em algum momento da vida, fará seu último gesto.</p>
<blockquote>
<h2>A diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance.</h2>
</blockquote>
<p>A precisão de linguagem com que Aline Bei desenha os movimentos internos da pequena protagonista chega a ser assustadora. A autora demonstra real intimidade de quem conhece os sulcos de dores que marcaram a pele e a alma da criança Júlia. Neste sentido, trago para esta resenha um pequeno trecho que demonstra como Júlia, sem o saber, no seu desespero, busca manter o frágil elo afetivo que a mantém ligada ao pai — que, ausente, ainda é seu ponto futuro na busca por afeto. Há uma possibilidade; sua intuição a alerta. Diz Júlia: “<em>quando meu pai fosse embora, eu sentaria naquele sofá incontáveis vezes apoiaria meu copo d’água na sombra do seu copo de cerveja.</em>”. O afeto que se refaz no desejo transformado na sua mais pura manifestação poética.</p>
<p>Mas vamos ao que efetivamente logo de início surpreende o leitor. O formato impresso de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>. Sua diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance. O visual tem um impacto peculiar e efetivo na leitura. É a distribuição de palavras ao longo da página que determina como vamos ler, como vamos nos sentar para ler, como vamos sentir o peso de cada emoção metaforizada, com que velocidade caminharemos sobre as páginas. Há uma teatralidade corporal nas palavras que vai além da simples semântica. Algumas se exibem solitariamente, outras apenas se acomodam diante dos nossos olhos, outras se apequenam, reduzindo-se a sua frágil autoestima, outras ainda bradam, desrespeitando a pontuação que, aliás, é de uma deliciosa rebeldia. E há as que se escondem de si mesmas, cabendo ao leitor decifrar suas intenções.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, o que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto.</h2>
</blockquote>
<p>Reforçando, a diagramação tem um efeito decisivo na relação emocional do leitor com a história narrada. Referindo-nos ao teatro, é como se as palavras se condicionassem a marcações antecipadamente ensaiadas, com o objetivo de explicitar para o leitor certas reações e ações da personagem. A autora distribui pelas páginas suas “explicações” interiores, fingindo camuflar seus sentimentos, disfarçando o que ela pensa sobre o que está dizendo. Há uma contemporaneidade estupenda nessa proposta diagramática.</p>
<p>E, por fim, a grande surpresa fica por conta do tom poético, levado, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, a surpreendentes extremos. O que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto, perpetrando uma manipulação perversa das sensações do leitor. É tão hábil, que o exemplo dado acima — quando a ausência do pai, simbolizado no copo de cerveja, se transforma numa simples sombra — nos remete imediatamente à incômoda mistura de abandono, saudade e esperança. Na poesia de Aline, tudo leva ao real. Esse estilo de fazer poesia traz prazeres renovados ao leitor, que se coloca diante de uma prosa contaminada por múltiplos sabores sensoriais.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais uma grata surpresa, que nos faz acreditar que a literatura brasileira atual esteja produzindo muito material literário de grande resultado artístico. Pensando em Aline Bei, só nos resta declarar que já estamos esperando pelo próximo projeto. Mas, sem ansiedade. Afinal, artista não constrói para si linha de produção. Então, cabe ao leitor continuar a degustar outras literaturas nacionais, enquanto espera por mais uma flor desse profícuo Lácio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Ao pó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Aug 2022 12:00:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA</strong></h1>
<p>Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor emoções genuínas. No caso do romance <em>Ao Pó</em>, por tratar da temática do abuso, os desafios aumentam. Como trazer para as páginas a pungência de ato tão vil? Nesse sentido, coube à autora a coragem e a sensibilidade de trilhar os passos da dor do abuso, até levá-la às últimas consequências. Por mais que se espere, não há espaço para a compaixão, posto que o ato jamais poderá ser desfeito. Este talvez seja o grande nó emocional. O abuso é um crime que não tem retorno. A vítima percorrerá seu caminho, levando consigo a sua história.</p>
<blockquote>
<h2>Ir embora significará fugir do inferno.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia, a protagonista-narradora, após viver uma infância de abusos praticados pelo tio — que depois passaria também a abusar da irmã mais nova, Aline —, realiza o que sempre sonhou: ir embora de sua terra natal, Tenente Portela, no Rio Grande do Sul. E ir embora significará fugir do inferno. Mas aqui o romance assume um peso extra — a culpa que Sofia levará consigo por ter deixado para trás, ao alcance do lobo, a irmã menor.</p>
<p>Essa é a relação umbilical que o romance <em>Ao Pó</em> estabelece entre as irmãs: a dor de Sofia passa necessariamente pela dor de Aline, por quem Sofia se sente responsável. Sofia é a mais velha, tem uma compreensão imediata do que está acontecendo, e, por isso, tem condições de manobrar as investidas do tio. Diferente da irmã, de alma e corpo indefesos, ainda necessitando de amparo. O fato de ter deixado Aline exposta ao perigo fez com que Sofia mergulhasse no poço da culpa. Não bastasse a culpa original, que impregna a psique de quem sofre abuso, agora essa culpa por ter abandonado a irmã à própria sorte. A dor se concretiza no dia a dia com a ruptura da relação entre as duas, fortalecendo primorosamente a musculatura narrativa do romance.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na busca sempre desesperada por soluções libertadoras, é comum que cada vítima tenha comportamentos singulares perante a memória do abuso. No entanto, as marcas parecem se repetir no corpo e na alma de todas e de todos, indistintamente. Nesse sentido, o que se espera de Sofia é o máximo que ela pode oferecer. E a autora é muito cuidadosa com sua protagonista, acompanhando seus deslizes e seus desesperos, contudo, sem abandoná-la. Esse é o cuidado criativo que Morgana Kretzmann reserva para sua criatura — evita julgá-la.</p>
<blockquote>
<h2>É esse distanciamento entre as irmãs, montado pela autora de <em>Ao Pó,</em> que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</h2>
</blockquote>
<p>Essa postura autoral fica clara na decisão da protagonista de largar tudo e sumir no mundo. Sofia, ao abandonar Tenente Portela para refazer sua vida no Rio de Janeiro, dá o passo decisivo na tentativa de reconstruir seu passado. No entanto, ao levar consigo a culpa pelo abandono da irmã, dá-se um fato curioso. O embate não ocorre diretamente com o abusador, posto que Sofia se movimenta sempre na busca silenciosa pela irmã. Mas as notícias chegam apenas em pequenos ecos desconexos que reforçam o cruel distanciamento entre as duas. É esse distanciamento, estrategicamente montado pela autora de <em>Ao Pó</em>, que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</p>
<p>Cabe aqui mais uma observação a respeito da arquitetura dramática do romance <em>Ao Pó</em>. Não é a autora quem decide o destino de sua personagem. Em estilo ágil, às vezes feroz, sempre límpido, Morgana não dá conta de domar Sofia, uma vez que Sofia já vem construída. A protagonista escapole do controle da autora e impregna as páginas do romance com sua existência de dores e suas buscas por um pouso que sabe nunca existirá. Não foi a autora que comprou a passagem da protagonista quando esta decide ir ao encontro do seu destino. Nem a Carlos Ilhas, o amor perdido, é autorizado tomar qualquer atitude em relação à vida de Sofia. As atitudes de coragem da protagonista são o ponto de mobilidade da trama em direção a seu clímax.</p>
<blockquote>
<h2>A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia repete sua dinâmica de desconstrução pessoal na forma como ela se aproxima dos homens. Parece que vai catando cacos de vida para criar a coragem da aproximação. Seus envolvimentos afetivos sempre perpassam pela insegurança de ter que ser aceita plenamente, e ser aceita indica que as relações não passem apenas pelo corpo. Esta condição de supremacia do afeto sobre o desejo molda suas experiências de vida.</p>
<p>Em paralelo a um cotidiano que flui de forma tão conturbada, Sofia busca entender seu distanciamento com Tenente Portela. Esse distanciamento estampa-se em suas memórias afetivas pelo silêncio acusador da irmã. Silêncio que a oprime, e contra o qual sente-se impotente. A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Ao Pó</em> permite que a protagonista busque reparar sua história. Mas há reparação?</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. Diante de tantos vazios preenchidos por dores, não resta a Sofia senão dar o último lance. A personagem não pode ficar parada no tempo. Não faz parte do seu <em>modus vivendi</em> entregar-se à tirania do destino. Aquilo que pertencia à fantasia, enfim, vai se concretizar, pois não cabe a compaixão como fonte de reconstrução. E Sofia precisa estar forte e pronta para a última reparação. Vai em busca dela, mesmo sem saber o que a espera. Na ficção, assim como na vida real, nada pode ficar em aberto. Temos que estancar nossas fontes de dor. E é o que Sofia acaba fazendo, ao dar seu derradeiro passo — vai ao encontro de sua vida perdida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Um jogador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Aug 2022 12:00:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>FICÇÃO COM RETOQUES DE AUTOBIOGRAFIA  O romance de Fiódor Dostoiévski, UM JOGADOR, 215 pg., Editora 34, lança uma luz fosforescente sobre a vida do escritor russo, no que tange a seu conhecido vício em jogos. Falido, precisando de dinheiro e pressionado pelo editor — que lhe dá o prazo de um mês para entregar alguma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>FICÇÃO COM RETOQUES DE AUTOBIOGRAFIA</strong></h1>
<p><strong> </strong>O romance de Fiódor Dostoiévski, UM JOGADOR, 215 pg., Editora 34, lança uma luz fosforescente sobre a vida do escritor russo, no que tange a seu conhecido vício em jogos. Falido, precisando de dinheiro e pressionado pelo editor — que lhe dá o prazo de um mês para entregar alguma obra —, Dostoiévski, com a ajuda da estenófraga Anna Grigórievna (com quem viria a se casar), compõe <em>Um Jogador</em> em vinte e cinco dias — entre os dias 4 e 29 de outubro de 1863. É um fôlego literário de dimensões épicas. E o resultado, a despeito do curto prazo, é inquestionável. <em>Um Jogador</em> vem a se tornar uma das obras mais importantes de sua extensa literatura. Artista de estatura incomparável, seu talento resistiria também a esse contratempo.</p>
<p>A trama, sufocante, gira em torno do jogo. Melhor. Do vício — este, sim, o elemento dramático que sufoca. É ao redor das roletas de um cassino, numa estação de águas no interior da Alemanha — cujo nome, Roletemburgo, já é bastante incômodo —, que Dostoievski constrói uma narrativa demoníaca a respeito do vício. Ele contrapõe personagens que se movimentam guiados pela cobiça. A ânsia pelo dinheiro fácil escapole dos diálogos cheios de ressentimentos e intenções. Mas o que se percebe é que a única (remota) possibilidade de se obter o dinheiro desejado é atravessar a rua e adentrar o Cassino.</p>
<blockquote>
<h2>A avó é a figura máxima do romance <em>Um Jogador.</em></h2>
</blockquote>
<p>No entanto, somente duas personagens se aproximarão das roletas ao longo de todo o romance. É o suficiente para Dostoiévski nos mostrar o quanto o vício corrói a autoestima de um jogador, lançando-o num terrível vácuo existencial.</p>
<p>A primeira das personagens a se infiltrar por entre a pequena multidão que cerca a mesa de jogo é o protagonista Aleksiéi Ivánovitch, que faz também as vezes do narrador, e a quem Dostoiévski empresta todo seu conhecimento sobre o complexo mundo da jogatina. Aleksiéi sabe que tem que manter o sangue-frio e o autocontrole, mas até quando? Até começar a ganhar além da conta? Ou até começar a perder tudo o que ganhou? A euforia do ganho fácil destrói o jogador calculista e frio, dando lugar ao jogador dominado pelos encantos da sorte e desesperado com a insistente presença do azar.</p>
<p>A segunda personagem a se sentar diante do crupiê e ali ficar por horas, sob o risco de perder toda a fortuna, é a avó. Essa é a figura máxima do romance! É a biruta que gira tresloucadamente em todas as direções, deixando rastros de angústia por onde passa. Sua insolência determina o ritmo do desespero dos que a cercam e dela dependem.</p>
<blockquote>
<h2>Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores presos ao domínio tirânico do imponderável.</h2>
</blockquote>
<p>Este é o fato inicial de <em>Um Jogador</em>. Todos aguardam notícias da distante Rússia sobre a iminente morte da avó — morte que significaria a herança farta; portanto, a solução para os problemas dos endividados. No centro dessa angustiante espera pelo óbito, está o sobrinho general. Sem o dinheiro da avó, ele sabe que estará arruinado.</p>
<p>E eis que chega o momento em que a narrativa entra em seu eixo natural. Certo dia, a avó desembarca na estação de águas de Roletemburgo e, impávida (e saudável), dirige-se para o Cassino. E de lá só sairá depois que o último centavo (copeque) se for.</p>
<p>É aqui que Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores — no vício não há vencedor — presos ao domínio tirânico do imponderável. E o autor vale-se de trágica comicidade para realçar o desespero que toma conta de todos, devedores e credores, ao verem a avó dilapidar sua fortuna. Aleksiéi é intimado a ficar junto da avó, com a missão de salvar a fortuna que lhes pertence por direito de herança. Mas, eis a situação! Um viciado tentando conter o vício alheio! Eis a ironia.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Um Jogador</em> é autobiográfico?</h2>
</blockquote>
<p>Dostoiévski há tempos alimentava o desejo de escrever algo sobre o jogo. Era uma temática que lhe pertencia, adquirida por meio de sofridas experiências pessoais. Se levarmos em consideração a maneira faminta com que o autor expeliu o romance, podemos imaginar o quão doloroso não foi para ele se defrontar com a realidade do vício. E aqui entra o ponto de discussão, matéria de muitas teorias mundo afora: até onde o romance <em>Um Jogador</em> é autobiográfico?</p>
<p>Que há inúmeros elementos autobiográficos no romance, disto parece não haver dúvida. A própria Anna Grigórievna, que o auxiliou taquigrafando o que Dostoiévski lhe ditava, confirma a forte influência de dados pessoais na composição do romance. E aqui acrescentamos mais uma pequena análise que vem corroborar a tão difundida tese da autobiografia.</p>
<blockquote>
<h2>Dostoiévski despeja nas páginas sagradas de <em>Um Jogador</em> o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício.</h2>
</blockquote>
<p>Veja que, na pressão de ter que escrever um romance em apenas um mês, não é difícil entender por que Dostoiévski buscou na vida pessoal elementos romanescos para enfrentar tarefa tão hercúlea. Ele precisava buscar seivas dramáticas que estivessem a seu alcance imediato. O tempo urgia, não havia espaço para elaborações, fermentações, prospecções, enfim, não havia tempo hábil para Dostoiévski amealhar fatos e ideias que viessem a compor o enredo do romance. Ele precisava, qual um apanhador de uvas, estar imerso no parreiral, onde bastava esticar a mão e ter a posse do cacho de que precisasse. Nada mais prático, portanto, que recorrer a si como fonte de experiências, ideias, sentimentos e emoções, além, óbvio, das recordações.</p>
<p>Nesse sentido, a figura de Aleksiéi, seu alter ego, transforma-se no protagonista perfeito para Dostoiévski despejar nas páginas sagradas de <em>Um Jogador</em> o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício. A personagem gira, ao longo de toda a narrativa, em torno deste dilema.</p>
<p>Não que Dostoiévski se sentisse um fracassado (quem garante?), mas, se levarmos em consideração o desfecho do romance, podemos supor que tanto a relação amorosa do protagonista-narrador com Polina, mulher enigmática, mas que se revela no final e oferece para Aleksiéi um horizonte possível, quanto seu fracasso em impedir a dilapidação da fortuna da avó revelam que poucas esperanças de vitória existiam diante do todo poderoso vício.</p>
<blockquote>
<h2>O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.</h2>
</blockquote>
<p>O dinheiro é o líquido viscoso que percorre por entre as linhas de <em>Um Jogador</em>. Escoa das mãos com a mesma facilidade com que fora acumulado. Esse pêndulo guarda toda a angústia entre o vício, que é a necessidade de simplesmente estar jogando, ganhando ou perdendo, e a percepção da necessidade de parar na hora certa. Mas, enfim, qual é essa “hora certa”? Enquanto se procura por ela, segue o jogo!</p>
<p>O desenrolar da narrativa nos traz a impressão de que o vício é dissociado do dinheiro. De que são duas entidades que se complementam, mas que não necessariamente estabelecem entre si uma relação de causa e efeito. Esta colocação parece fazer sentido, uma vez que não se pode prever a sorte, muito menos evitar o azar. Entre a indisfarçada ânsia pelo ganho e a insuportável angústia da perda, o dinheiro torna-se uma personagem secundária. E essa é a trágica condição humana que Dostoiévski relata em <em>Um Jogador</em>. O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.</p>
<blockquote>
<h2>O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal.</h2>
</blockquote>
<p>Talvez pela própria necessidade de terminar em curtíssimo prazo o romance, Dostoiévski imprimiu a ele um ritmo diferente, de urgência, com suas personagens entrando e saindo de cena, num interminável espetáculo teatral. Fica evidente que o autor busca na comicidade esse elemento vivo e ágil que transporta a narrativa para lugares mais arejados, compensando a angustiante ânsia de ter que conviver com o vício. O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal. O ápice indesejado da angústia! É a lança cravada no peito! É o terrível momento que sacraliza o vício. A comicidade é apenas a sua válvula de escape. É a cortina flutuante que mascara a dor.</p>
<p>Há uma outra questão a abordar, que diz respeito à preocupação de Dostoiévski em contrapor a velha Rússia à Europa Ocidental. Perfilam pela trama alemães, um francês aristocrata ganancioso e um inglês de procedência duvidosa. Esse jogo de nacionalidades permeia as ações principais do romance, trazendo para o velho Dostoiévski mais uma oportunidade de lançar suas chispas contra o anseio de ocidentalização da Rússia. Nas bordas da roleta, e distante dela, o credor é sempre o europeu.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um jogador</em>, a despeito de seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como um romance de ficção.</h2>
</blockquote>
<p>Esse trânsito entre culturas — de um lado, uma Rússia geograficamente isolada, alimentada por anseios de europeização, e de outro, uma Europa pujante, caminhando em direção à civilidade e à total industrialização — permite a Dostoiévski discutir o verdadeiro papel do russo leal às suas tradições. A Rússia pode ser o que for, mas ela não abrirá mão de sua verdadeira origem. Nesse ponto, o escritor russo apresenta-se como o feroz guardião da identidade russa.</p>
<p>Em suma. <em>Um jogador</em>, a despeito das velhas discussões sobre seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como mais um romance de ficção. Estão ali todas as características técnicas e romanescas que assim o definem. Dostoiévski é um velho observador da natureza humana, e ele não se omite em trazer para suas páginas os modelos humanos que chamam sua atenção. Essa capacidade de filtrar a realidade e tirar dela o que pode ser útil para compor a obra ficcional é que faz o diferencial do artista. Dar retoques ficcionais à realidade é seu compromisso de artesão, pois, ao forjar a sua obra, ele a entrega aos cuidados da arte eterna.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Suíte Tóquio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jul 2022 12:00:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE</h1>
<p>O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, como é possível atuar em tantos espaços de igual para igual com outros gêneros, sem comprometer o exercício da maternidade? Fernanda, uma das protagonistas, quer ser mãe, quer ser esposa, mas também quer ser ela mesma. Para tanto, precisa estar liberta dos rótulos femininos a que está previamente condenada. Estar disponível para buscar outros prazeres, sonhar com outras conquistas, dar-se a chance de desfrutar de outras vivências. E como bem nos mostra Giovana Madalosso, não é fácil reconstruir-se dentro dos padrões modernos do que é ser mulher. A luta é renhida.</p>
<p>Em <em>Suíte Tóquio</em>, Fernanda, portanto, vai se colocar como a representante das mães que querem antes de tudo ser pessoas disponíveis para as oportunidades da vida. E nessa busca pela ascensão profissional, um dos principais símbolos modernos da libertação feminina, Fernanda se arma de toda uma estrutura para que sua filha se sinta segura e amada. Mas o que mostra mesmo este delicado romance, de uma fluidez de estilo e riqueza de metáforas e ironias, é que as coisas não são tão fáceis assim. Chega o momento, infelizmente, em que a mulher é obrigada a recuar.</p>
<blockquote>
<h2><em>Suíte Tóquio</em> abre discussões sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher moderna.</h2>
</blockquote>
<p>A narrativa, habilmente armada, se desenvolve a partir de dois pontos de vista, em que as opiniões são democraticamente divididas, cabendo a fiel alternância de capítulos entre a narradora Fernanda, a patroa, e a narradora Maju, a babá. Ou empregada doméstica. Enfim. Aquela mulher desprovida de família e de segurança financeira e emocional, vinda do interior do Paraná, que se estabelece na capital São Paulo como trabalhadora doméstica, se submetendo às exigências, nem sempre bem-intencionadas, das patroas.</p>
<p>Ao aceitar um alto cargo numa produtora de filmes, Fernanda se vê no dilema entre recusar para poder estar mais perto da filha e do marido, ou aceitar e assim perseguir sua ambição de ascensão profissional. Felizmente, e aqui está a assertividade feminina moderna, ela aceita encarar o desafio, o que a leva a incontáveis viagens, reuniões e compromissos que a ausentam com frequência do lar. Neste ponto, abrem-se as discussões, tão familiares a nós, sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher inserida em uma contemporaneidade fluida e impermanente, ainda carregada dos odores machistas.</p>
<blockquote>
<h2>À medida que vamos avançando na leitura, nos deparamos com o que importa para a autora de <em>Suíte Tóquio: discutir a maternidade.</em></h2>
</blockquote>
<p>Para aceitar a proposta do novo emprego, Fernanda se apoia em dois pilares favoráveis. Seu esposo, Cacá, sempre companheiro, sem emprego fixo, portanto, sustentado, sem conflitos, pela mulher; e sua já trabalhadora doméstica Maju, a quem propõe um polpudo salário para que trabalhe vinte e quatro horas por dia, folgando apenas um domingo por mês. A indecorosa proposta de Fernanda a Maju evidente abre mais uma ferida nas já promíscuas relações socioeconômicas impostas pelas classes superiores.</p>
<p>Diante da proposta da patroa, Maju vai passar pelo mesmo dilema: entre aceitar uma “ascensão profissional”, tendo que sacrificar sua relação com o namorado, ou recuar e se manter presa às rotinas já estabelecidas. Fica claro que a realidade feminina moderna, baseada na independência financeira, está submetida a sacrifícios. Esta é a tônica da narrativa. No entanto, à medida que vamos avançando na leitura, vamos nos deparando com o que realmente importa para a autora de <em>Suíte Tóquio</em> — finalista do prêmio Jabuti 2021 com este belo romance — discutir: a maternidade.</p>
<blockquote>
<h2>Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho.</h2>
</blockquote>
<p>Parece-nos que a mulher, e isto está evidente hoje em todas as áreas sociais, inclusive nos costumes e maneira de se relacionar com o sexo que a atrai, continua presa ao velho dilema da maternidade. A mãe não tem como terceirizar certas responsabilidades, certos afetos, certos cuidados, sob pena de colocar em risco a formação emocional do filho — eis a estrutura burguesa de maternidade! E a busca pela equação perfeita é o desafio que Fernanda coloca para si como mãe, esposa e profissional. É um jogo de xadrez que está pronto, a qualquer instante, para dar o xeque-mate.</p>
<p>Por uma feliz decisão narrativa, Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho, neste caso, pelo desaparecimento. A filha Carol é raptada por Maju, que resolve abandonar tudo e levar consigo a sua <em>Picochuca</em>, por quem nutre profundos e afetuosos sentimentos maternos. Ela que, por infortúnios da vida, não pôde ser mãe. Parece-nos viável concluir que se trata, a seiva emocional deste romance, de uma luta entre maternidades, quando Giovana Madalosso, numa feliz solução narrativa, afunila a problemática.</p>
<blockquote>
<h2>O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir.</h2>
</blockquote>
<p>Apesar da segura armação do enredo, <em>Suíte Tóquio</em> navega por mares agitados, por temáticas espinhosas. Mas dispondo de ferramentas estilísticas afiadas, a autora, como verdadeira artista que é, vai proporcionando ao leitor um delicioso passeio literário que flui ao sabor dos sopros criativos, garantindo os prazeres a quem aprecia a boa leitura. Este é o grande trunfo da escritora. Oferece ao leitor uma arte completa, na sua concepção e na sua execução.</p>
<p>Em suma. O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir. Por isso indicarmos este romance fundamental para entender um pouco mais do papel da mulher dentro do hoje complexo sistema socioeconômico, principalmente ela que já ocupa cada canto desse imenso espectro social que compõe a agitada sociedade moderna. E é certo, e é conclusivo. Para onde ela for e caminhar, terá que levar não o estigma, mas o privilégio de ser mãe. Esta é a conquista que cada mulher-mãe terá que buscar. Ser mãe com independência.</p>
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		<title>Copo Vazio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jul 2022 12:00:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO  Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO</strong></h1>
<p><strong> </strong>Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único plano-sequência. Não há como abandoná-la. Virar-lhe as costas. E ao fechar o livro para um descanso, um cafezinho, sabemos que, ao retomar a leitura, ela estará no mesmo lugar, à nossa espera, para continuar a nos contar sua história de amor desencontrado. Iremos nos comover com sua incompleta trajetória amorosa (a vida profissional é perfeita), o vazio expandindo-se através do copo que reflete as angústias de uma mulher que simplesmente quer amar e ser amada. Essa é a busca quase obsessiva de Mirela. Apenas ter alguém com quem dividir o cotidiano.</p>
<p>Quando estamos amando, tudo parece fluir em outro ritmo, como se uma redoma de felicidades cambiantes nos envolvesse. Mas, ao não sermos correspondidos, a certeza — e a força — desse amor se esvai. Aos poucos distanciamo-nos dele, resolvemos nossas dores e logo estaremos prontos para recomeçar a busca por um novo amor, em uma nova relação. Não é este o caso de Mirela.</p>
<blockquote>
<h2>Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro.</h2>
</blockquote>
<p>Ela pode até iniciar outros relacionamentos, mas o que permanece é o amor antigo, não correspondido. Ocupando sua mente e coração. Enchendo-a de dúvidas. De esperas e buscas angustiantes. Por mais que ela tente e queira, não cabe outra tentativa de amar. Volta sempre ao mesmo ponto. Quem sabe no próximo encontro tudo será diferente. Ele voltará inteiro para ela. Esta submissão ao improvável amor do outro a exaspera. E exaspera o leitor, que aos poucos perde a esperança de torcer por um final feliz. E é neste ponto que a personagem nos coopta e nos comove. Ela não deixa de acreditar na possiblidade real do amor do outro por ela. E é por acreditar, que ela não desiste.</p>
<p>A eficiência da estrutura narrativa fica clara quando Natalia Timerman vai além na sua proposta. Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro. Percebam a volatilidade dos sentimentos, que nos deixa perplexos e atarantados.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Copo Vazio</em>, temos a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo.</h2>
</blockquote>
<p>Mirela é uma arquiteta bem-sucedida em busca de um relacionamento que ela vai encontrar, incentivada pela irmã, nas redes sociais. Aqui o romance <em>Copo Vazio</em> já apresenta uma situação bem ousada. Não vamos a festas e a lugares badalados para encontrar nossa cara metade. A internéti está em nossos celulares para nos oferecer um cardápio de amores.</p>
<p>Mirela começa um relacionamento promissor com Pedro, o príncipe alto, loiro, lindo de morrer, sonhado por tantas mulheres&#8230; Mas é um príncipe afetivamente escorregadio! E é aqui que os problemas começam.</p>
<p>Por mais que Mirela tente segurá-lo, Pedro desliza por entre seus dedos, na calada da madrugada, sem que ela sequer tenha tempo de perguntar por que ele está indo embora. De novo.</p>
<p>É a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo. Em algum momento, um movimento inesperado, alheio à compreensão de Mirela, fará com que tudo saia do eixo. O que torna, paradoxalmente,<em> Copo Vazio</em>, um romance tão cativante quanto angustiante.</p>
<blockquote>
<h2>Copo Vazio não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres.</h2>
</blockquote>
<p>Amparada por um estilo limpo, escorreito, pendular e preciso, Natalia Timerman edifica a estrutura da narrativa em dois tempos, o agora e o antes, alternando os capítulos, como se fossem espelhos colocados uns diante dos outros, numa projeção sem fim de encontros e não encontros, presenças e não presenças. Resta saber, e aqui nos omitimos, quem vencerá esse jogo.</p>
<p>Em suma. <em>Copo Vazio</em> se coloca em um patamar literário reservado aos grandes romances nacionais contemporâneos, reforçando a grata surpresa da cada vez mais vigorosa literatura feminina ocupando os espaços literários sisudos construídos por homens de letras. E não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres. Pelo contrário. É um romance que deve ser lido por homens. Primeiro, para conhecer bem de perto os sutis movimentos de uma alma feminina em constante busca de si e do outro. E depois, porque homens também buscam amar e ser amados. Afinal, assim como fazer literatura, amar apaixonada e até obsessivamente não é privilégio de gênero.</p>
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		<title>O parque das irmãs magníficas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Jul 2022 12:00:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A LITERATURA COMO COMPANHEIRA Para definir o romance de Camila Sosa Villada, O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS, 206 pg., Ed. PLANETA, podemos nos servir do adjetivo que qualifica, no título, as personagens da trama: magnífico. Ninguém, seguindo sua história pessoal, poderia ser mais autorizado a escrever sobre a realidade das travestis senão a própria Camila. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A LITERATURA COMO COMPANHEIRA</strong></h1>
<p>Para definir o romance de Camila Sosa Villada, O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS, 206 pg., Ed. PLANETA, podemos nos servir do adjetivo que qualifica, no título, as personagens da trama: magnífico. Ninguém, seguindo sua história pessoal, poderia ser mais autorizado a escrever sobre a realidade das travestis senão a própria Camila. Sua voz terrivelmente límpida, e ao mesmo tempo lúdica, apropriando-se de uma linguagem dançante, desprovida de elementos depressivos, torna-se a ferramenta ideal para tratar de temática tão delicada quanto merecedora de atenção. São inúmeras as histórias de travestis que circulam de forma invisível pelas ruas das cidades e se tornam visíveis apenas nos noticiários, quando seus corpos, estirados ao chão, tornam-se alvo de curiosidade, jamais de horror.</p>
<p>O romance é narrado na primeira pessoa, fazendo da narradora a testemunha onipresente de cada vivência tirada da cumplicidade de mulheres desprotegidas que encontram nas companheiras seu ponto de equilíbrio. Afinal, é preciso sobreviver noite afora para chegar ao dia seguinte. Mesmo sabendo que nem sempre se tem a certeza de que o próximo sol brilhará.</p>
<blockquote>
<h2>Confiantes, caminham em direção a O Parque das Irmãs Magníficas, sabendo que lá as espera mais uma noite de incertezas.</h2>
</blockquote>
<p>O palco glamouroso da narrativa é um parque (<em>O Parque das Irmãs Magníficas</em>) — único lugar seguro onde elas podem ser procuradas para vender prazeres (alguns realmente prazerosos, outros sulcados pela navalha do medo). No entanto, a protagonista do romance é a própria vida, com sua nobre missão de representar seres que teimam em viver em um mundo que os afasta do convívio dito “normal” da sociedade. As travestis agem com a certeza de que levarão para a sepultura suas carnes machucadas pela dor da rejeição e do abandono. No cotidiano, não passam de imagens anônimas que se impregnam dessas dores, assumindo corajosamente o destino que lhes é imposto. Quando é chegada a hora, caminham confiantes em direção ao Parque das Irmãs Magníficas, sabendo que lá as espera mais uma noite de incertezas.</p>
<p>Um fenômeno que está ocorrendo no mundo, e não poderia ser diferente nas artes, em específico na literatura, é o poder das vozes das minorias querendo se fazer ouvidas. E, talvez, nos parece, a literatura seja o porto de salvação encontrado por Camila como forma de construir para si parâmetros sociais de vida digna. E, por que não, vida saborosa. Nessa busca, Camila Sosa Villada acaba encontrando dentro de si o talento germinal que a levou, como escritora, a alçar voos seguros para fora de si e de seus esconderijos. Foi para o mundo para ser aplaudida.</p>
<blockquote>
<h2>O que é narrado em <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> absolutamente não pertence à ficção.</h2>
</blockquote>
<p>Pode-se falar em redenção para a protagonista? Mas&#8230; redenção do quê? De um direito que sempre foi seu, o de viver? Será que é preciso proclamar que a vida plena está disponível para todas e para todos? Falamos aqui de atos heroicos. Pois, mesmo sabendo das dificuldades em encontrar forças para ir adiante, há sempre a luta cotidiana para afastar dos caminhos os infortúnios. É assim que a autora constrói um heroísmo para suas personagens. Mas é um heroísmo que passa longe das ilusões glamorizadas. O que é narrado em <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> absolutamente não pertence à ficção.</p>
<p>Outra característica a ser ressaltada na literatura de Camila Sosa Villada é sua proximidade, diria promíscua, com a literatura sul-americana. É a linguagem que se constrói por meio de mundos puramente pessoais, de fluidez encantatória, onde a carne transita à frente da alma, abrindo caminho para que esta se reproduza em cada contato com a magia da linguagem.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> se transforma, para o leitor desavisado, numa surpresa.</h2>
</blockquote>
<p>E uma das reconhecidas forças dessa literatura fantástica são as imagens que brincam com cada palavra escrita. São elas, as imagens, que fazem as palavras alçarem voos para além da realidade vivida. Haja vista a personagem María, a Muda, transformada em pássaro para se fazer poeticamente indefesa e ao mesmo tempo liberta de seu inegociável destino. Há também a incansável Encarna (nome carregado de imagens), mulher que chegará perto de completar quase duzentos anos de vida, acumulando paciência e sabedoria. Camila se apodera dessa imagética para confirmar a ousadia do seu estilo, reafirmando o inconformismo de linguagem tão típica da nossa literatura sul-americana, e fortemente arraigada na literatura de língua hispânica. Camila Sosa torna-se uma expoente dessa tradição.</p>
<p>Em suma. <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> se transforma, para o leitor desavisado, numa surpresa. Ele é convidado, sem chances de recusar, a fazer parte das dinâmicas cotidianas das travestis que têm a capacidade malabarística de esconder os sofrimentos nas alegrias. Talvez esta seja a grande solução humana à disposição das personagens de Camila Sosa. São, acima de tudo, seres que transitam pela invisibilidade como forma de transformar suas vidas em uma grande festa. E isso só é possível porque a tragédia já está anunciada.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Os supridores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 12:00:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO</h2>
<p>Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram aos borbotões, que o leitor acaba sendo tragado pela fluidez escorregadia de narrativa tão saborosa quanto bem arquitetada. Lógico, para atender a essa sede de palavras escritas, Falero compôs personagens tagarelas. A língua precisando se apressar para acompanhar o ritmo mental do protagonista Pedro. Ele não cabe em si de tantas ideias transformadas em sonhos, ideias que escapolem de sua mente fértil como pipocas pulando de uma panela sem tampa. Pedro é, antes de tudo, o sujeito que move a história: essa foi a missão imposta a ele pelo autor.</p>
<p>O título <em>Os Supridores</em> vem da função que os amigos Pedro e Marques exercem em um supermercado. Sim, são aquelas pessoas que repõem produtos nas prateleiras. No entanto, ao longo da narrativa, esse conceito se expandirá, dando outra conotação à palavra “supridor”. Referimo-nos aos protagonistas que passam a suprir a periferia com papelotes de maconha.</p>
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<h2>São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>.</h2>
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<p>Podemos falar, sim, de protagonistas, no plural, já que a estrutura do romance acolhe outros agentes que, unidos pela amizade, percorrem a mesma trajetória narrativa. São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>. Quando uma ação inimiga atinge um, estará atingindo a todos. Essa corresponsabilidade de colorir a história com as mesmas emoções é que faz de <em>Os Supridores</em> um hino à lealdade.</p>
<p>Pedro e Marques, enquanto repõem os produtos nas prateleiras, vão tecendo seus sonhos e pesadelos. Rapazes pobres da periferia, cujos sonhos se concentram numa única possibilidade futura: ter dinheiro, muito dinheiro, para poderem viver bem. No entanto, simples empregados de supermercado, as chances de amealhar riqueza são bastante remotas. Estão destinados, como os avós e os pais, a continuarem pobres, tendo que se contentar com um salário que mal lhes oferece sobrevivência digna.</p>
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<h2>Só que agora as coisas serão diferentes. É contravenção séria.</h2>
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<p>Esse impasse social e, lógico, econômico, é o mote que fará girar a roda da fábula. E tudo acontecerá porque Pedro nem pensa em se submeter ao legado de pobreza herdado de seus antepassados. Arquiteta um plano: vender maconha na periferia. Em meio às gôndolas, não só convida o amigo Marques a fazer parte do negócio, como vai expondo suas ideias, reforçando a certeza de que vender drogas é o único ponto de fuga para saírem da miséria.</p>
<p>Mas que fique bem claro. São trabalhadores que vão se aventurar, de forma honesta, no mundo do crime. Já experimentam o sabor da transgressão ao roubarem guloseimas dos depósitos do supermercado para satisfazerem seus desejos de consumo. Só que, agora, as coisas serão diferentes. É contravenção séria. Mas segura, promete Pedro a Marques. Afinal, Pedro não é bobo, conhece os riscos, que são, por ele, engenhosamente calculados.</p>
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<h2>Em <em>Os Supridores</em>, Pedro é o homem de confiança do autor.</h2>
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<p>O autor apresenta a feliz solução ao construir a premissa que embasará a estrutura dramática e que servirá para justificar os passos duvidosos a serem dados por dois jovens pobres e honestos, que até então cresceram à margem da bandidagem, a despeito de toparem com ela pelas ruas dos bairros onde moram. Pedro percebe que os traficantes se voltaram para as drogas pesadas, muito mais lucrativas, abandonando o comércio da maconha. Portanto, a maconha é uma demanda reprimida, à espera de ser explorada.</p>
<p>O sucesso da empreitada se deve às ações positivas de Pedro. Ele é o homem de confiança do autor. O autor precisa da capacidade de articulação de Pedro para levar a cabo a sua história. Nenhum contratempo poderá perturbar o encaminhamento do feliz enredo, mesmo que estejam envolvidos numa atividade tão ferozmente competitiva quanto a venda de drogas.</p>
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<h2>Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre.</h2>
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<p>Ao assim projetar a trajetória segura para suas cinco personagens, Falero cumpre seu desejo de preservar a integridade moral deles. Pedro espertamente evita invadir os territórios alheios. Apenas pede permissão para entrar. E a permissão é dada, posto que o negócio de Pedro e sua gangue não competirá com os lucrativos negócios dos barões do tráfico.</p>
<p>Um dos aspectos que mais chama a atenção do leitor é a habilidade com que José Falero trabalha a oralidade em suas personagens. Consegue aproximá-las do meio em que vivem. Aliás, Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre. Ele oferece ao leitor a sensação de estar convivendo com pessoas pinçadas da realidade — portanto, construídas em carne e osso. É o fabuloso mundo do escritor, fotografado por meio da fala.</p>
<p>Vale lembrar que a norma culta só é utilizada nos momentos em que o autor se distancia de suas personagens para fazer avançar a trama.</p>
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<h2>Em <em>Os Supridores</em>, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal.</h2>
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<p>Muito habilidoso, Pedro nos é (também) apresentado como uma figura intelectualmente antenada, a ponto de discorrer sobre as teorias marxistas com grande intimidade. Acredita que todos somos iguais, e que, para viver bem e em harmonia, as riquezas produzidas terão que ser igualmente divididas — independentemente da maior ou menor capacidade de cada um em produzi-las. É a partir dessas idiossincrasias que Pedro estrutura a convivência da gangue e, por conseguinte, a distribuição equitativa dos ganhos pela venda da maconha.</p>
<p>Entretanto, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal. Ao compor para suas personagens um quadro social baseado em convivências idealizadas, mesmo em se tratando de um negócio ferozmente competitivo, posto que envolve o fluxo de muito dinheiro, José Falero impede que aflore nas dinâmicas das relações cotidianas entre os membros do grupo os perigosos sentimentos da cobiça, da ganância, do ciúme e, em última instância, do poder. O que fazer com tais sentimentos? Como neutralizá-los?</p>
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<h2>O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir.</h2>
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<p>Falero opta por jogar o conflito para além do grupo, quando a turma começa a ser ameaçada por outra gangue, perigosa e violenta. Ao unir o grupo em torno da defesa do seu território, essa coesão evitará que conflitos internos se manifestem. E, para impedir a eclosão desses conflitos, Falero joga os bons companheiros na fogueira da violência. É quando o autor contará mais uma vez com a força mental idiossincrática de Pedro, seu comparsa no encaminhamento do desfecho da narrativa. A rígida flexibilidade do arco da personagem Pedro facilitará a solução, dando a ela, talvez, um alcance menor, mas não menos impactante.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais um autor com imensa capacidade criativa e técnica para se consolidar como expoente da nossa literatura. O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir. Essa é uma das qualidades necessárias para nos engajarmos nas grandes estórias. Sentirmo-nos participantes delas. No caso do romance de Falero, depois de intensa participação, sairemos da história com uma amarga certeza: a de que não existem sonhos perfeitos.</p>
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