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	<title>Arquivos romance - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos romance - Roberto Gerin</title>
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		<title>O acontecimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Nov 2022 12:00:51 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>UMA PUNGENTE AUTONARRATIVA</strong></h1>
<p>Em seu romance O ACONTECIMENTO, a escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura em 2022, não camufla a realidade: não esconde os lugares, as datas e as pessoas que fazem parte da trama. A autora dá ao romance a versão não-ficcional de um conturbado enredo vivido por sua personagem. Se é uma autobiografia romanceada, parece não haver dúvida. O que sobra é coragem por parte da autora em dissecar momentos dolorosos de sua vida, permitindo-nos acompanhar todos os movimentos que a levaram à decisão de abortar. Fica-nos a evidência de que ela usou a literatura para colocar as dores no seu devido lugar. E, para que a dor fosse reconhecida como o eixo da existência, Annie Ernaux se propõe a denunciar as estruturas sociais moralistas como algozes implacáveis que afligem, submetem e fragilizam a mulher. No entanto, é essa rede de perversidades que a motiva a seguir adiante. A vida podia ter sido melhor, sim. No entanto, ainda há forças para se refazer ao longo do caminho.</p>
<blockquote>
<h2>Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular.</h2>
</blockquote>
<p>Annie Ernaux não economiza imagens radiografadas em palavras cruas para descrever seus sentimentos de inominável angústia ao se colocar diante do fato consumado. Para retratar este momento, eis como ela descreve o desfecho do aborto: “<em>Choramos silenciosamente. É uma cena sem nome, a vida e a morte ao mesmo tempo. Uma cena de sacrifício</em>”. Esse é o acontecimento.</p>
<p>Fato marcante na literatura de Annie Ernaux é ela não se desgrudar dos imbróglios sociais que determinam sua vivência no mundo. Ela, como pessoa e personagem, é agente do meio, um corpo às vezes descontruído, às vezes com vontades e desejos próprios, que se move por entre estruturas rígidas, necessitando de toda cautela para não esbarrar na dor. Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular. E haverá sempre a necessidade de se superar, de vir à tona, de recomeçar. Não há como, ao se falar de dias vividos num tom de autobiografia sem complacências, não se dobrar à sinceridade e ao espanto.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto.</h2>
</blockquote>
<p>O sonho de dias melhores é um lenitivo para a desesperança. Na próxima esquina, ao virar para outra direção, pode ser que encontre mais luz, mais brilho, mais sol. Sair da penumbra é o desejo que não se apaga. O que nos surpreende é a certeza da protagonista de que só o aborto a libertará das amarras morais que a acorrentam. Vai levar para a vida a amargura da luta insana, mas, ao se sair vitoriosa, o futuro pode ser mais atrativo do que um passado de sofrimentos. Essa é nossa condição de viver: esperar que lá na frente haja o pouso feliz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O fio condutor do relato de vida da protagonista se concentra na sua tentativa desesperada de realizar o aborto. Dentro desta perspectiva angustiante, a possibilidade técnica encontrada pela autora foi se distanciar no tempo. Ela se utiliza das ferramentas da memória e de escritos esparsos para compor a trajetória de angústias de uma jovem universitária de vinte anos que engravida de uma relação insegura, e que se vê, com isso, condenada aos julgamentos da família e da sociedade. Estamos falando da década de 1960, numa França sob os efeitos da ressaca cívica da ocupação nazista. A culpa ainda permeia o esgarçado tecido social, uma época que antecipa os espasmos políticos de 1968. É nesse ambiente de incertezas e opressões que a protagonista, sem muito elaborar sua decisão — mas decidida a abortar —, vai em busca da solução para o problema que se aninha em seu ventre. Fica-nos a impressão de que não é ainda o momento histórico para o rebento vir ao mundo.</p>
<blockquote>
<h2>Ao falar da mulher, <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por homens.</h2>
</blockquote>
<p>Portanto<em>, O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto. Acompanhamos a personagem pelas ruas de Roeun, pelos metrôs e avenidas de Paris, na busca de quem materialize a sua decisão. Ainda um tabu — e um crime —, o aborto só podia ser realizado pelos “anjos da morte”. São mulheres que se utilizam de técnicas heterodoxas, algumas perigosas, outras agressivas ao corpo feminino, para livrar a mulher do incômodo social da gravidez. A técnica abortiva a que se submeteu a protagonista é de arrepiar os neurônios — Annie Ernaux não nos poupa de suas descrições.</p>
<p>Se <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por mulheres que se identificarão com a protagonista, mesmo não tendo passado pelas vicissitudes do aborto, é, acima de tudo, uma narrativa obrigatória para homens. Em um primeiro momento, para conhecerem os sofrimentos da maternidade indesejada, da qual, evidentemente, fazem parte; e, depois, para que se conscientizem de que a prevenção e o cuidado com a parceira são atos humanos indispensáveis numa relação, seja ela duradoura ou passageira. Virar as costas para a inesperada gravidez da parceira é um ato de indesculpável covardia. É deixar a mulher entregue à sorte de encontrar quem a ampare. E este é exatamente o núcleo existencial do romance: desamparada, Annie Ernaux radiografa cada minuto do seu solitário calvário de sofrimentos para se libertar de sua condição de grávida. Ao sair para a vida, livre do feto, há uma outra mulher, machucada, sim, mas liberta.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> celebra a vitória pessoal da autora.</h2>
</blockquote>
<p>A literatura de Annie Ernaux nos surpreende pela racionalidade cirúrgica com que ela traça a realidade em movimento, não poupando ninguém e nada, como se a autora lançasse um olhar vingativo sobre o mundo. Um mundo que lhe foi hostil, em todos os aspectos. Um ser vivente não acolhido pelos sonhos, e que teve que, primeiro, ir atrás de compreender as suas origens, e, depois, tentar se refazer em uma outra estrutura social e econômica, que lhe desse o direito de ser feliz, longe de estruturas furiosas que a agridem e a limitam como ser e como mulher. Dar o salto arriscado para o outro lado do muro social, com o sonho de ser apenas mais uma pessoa normal, foi o que a motivou a superar sua história. Eis a vitória pessoal esculpida neste pungente romance <em>O Acontecimento</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Úrsula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE &#160; Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE</strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques, a realidade de dores do escravizado. Esse hábil jogo de revelar verdades históricas inseridas na concepção romanesca — forma <em>versus</em> conteúdo — alça o romance de Maria Firmina ao <em>status</em> de literatura a serviço da arte e da política. Não tem como dissociar <em>Úrsula</em> de seu tempo histórico. Não à toa, tornou-se uma obra-prima da nossa literatura romântica.</p>
<p>A despeito do inquestionável mérito literário de <em>Úrsula</em>, causa estranhamento o silêncio que envolveu a obra ao longo de quase todo o século XX. Se percorrermos resenhas e discussões literárias, inclusive no âmbito dos bancos escolares, vamos perceber raros momentos em que esse romance, basilar da nossa literatura, foi objeto de apreço e análise. Só nos últimos anos o silêncio vem se quebrando. E o que vemos agora, como justa reparação, é a participação de Maria Firmina como homenageada na 20ª edição da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.</p>
<h2>Não há hoje, na proposta política de combate ao racismo, ignorar <em>Úrsula</em>.</h2>
<p>A escravidão é uma temática espinhosa, que costumamos relegar para páginas menores da nossa história, evidenciando a falta de interesse em colocar fato tão vergonhoso diante dos holofotes. Em tempos atuais, em que o racismo é assunto de discussões sérias, em que a literatura de autoras e autores negros vem ganhando destaque nas mídias especializadas e nas estantes de leitores sedentos por conhecer a realidade social do preto, não há mais como ignorar <em>Úrsula</em>. Tornou-se imperativo festejar Maria Firmina dos Reis, atestando sua importância no surgimento dessa literatura voltada para discutir as questões cotidianas da gente preta.</p>
<p>E todo esse movimento começou lá trás, pelas mãos de Maria Firmina dos Reis, mulher negra e letrada (professora no interior do Maranhão), que insistiu em lutar pelo sonho de se transformar numa escritora publicada. <em>Úrsula</em> vem a lume em 1859, ainda no auge da escola romântica. Mas com um detalhe. Maria Firmina publica seu romance sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, para, só depois, em outras edições de outros escritos seus, assumir corajosamente seu nome de mulher e sua condição de escritora negra. Eis o grande feito: ela não só se torna a primeira mulher a publicar um romance no Brasil como revela ser, esta mulher, negra.</p>
<h2>O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio.</h2>
<p>O enredo gira em torno do amor impossível entre Úrsula e Tancredo. O moçoilo bem-apessoado sofre um acidente de cavalo nas cercanias da fazenda onde Úrsula mora com sua mãe, Luiza B. Túlio, o escravo da fazenda, encontra Tancredo gravemente ferido. Leva-o para a casa de sua senhora, onde o enfermo recebe os cuidados de Úrsula. Como não poderia ser diferente, os dois jovens se apaixonam, com trocas de juras de amor eterno. O enlace é adiado tendo em vista compromissos inadiáveis de Tancredo. A ausência do amante possibilita à autora introduzir, primeiro, as questões da escravidão, e, depois, o vilão da trama.</p>
<h2>Do romance <em>Úrsula</em> emerge uma outra África, a terra da liberdade.</h2>
<p>A grande inovação de Maria Firmina foi dar voz própria aos negros que, apesar de coadjuvantes, têm a potência necessária para ecoar as dores geradas pela escravidão e provocar emoções genuínas no leitor. Reside aqui a alma essencial do romance, quando nos é dada a oportunidade de ouvir a voz da preta Susana. O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio. Ao ser alforriado com o dinheiro presenteado por Tancredo, e decidido a abandonar a fazenda de Luiza B., Túlio vai se despedir de Susana. É a oportunidade que a autora se oferece para falar de tema tão caro a ela: a escravidão e suas dores.</p>
<p>Susana rememora seus dias livres de infância e adolescência vividos na sua mãe-África. Por meio dos relatos de Susana, a autora nos traz uma África diferente, exaltada como a terra da liberdade. É o lugar onde os negros, agora escravizados, eram felizes. Casada, mãe de filhos pequenos, é capturada e transportada para uma terra distante: a terra do sofrimento, a terra da escravidão. É a chaga que o Brasil, visto por meio de sua história oficial, sempre tentou esconder.</p>
<h2><em>Úrsula</em> simboliza a tragédia moral em que se transformou a escravidão.</h2>
<p>O romance ganha fôlego dramático com a introdução do vilão, o agente de sofrimentos e tragédias. É o Comendador, irmão e vizinho de Luiza B. Em um encontro fortuito com a sobrinha Úrsula, o tio se apaixona por ela. É uma paixão incontrolável, que gera um amor egoísta e vingativo. O ódio que o Comendador nutre por sua irmã, Luiza B., por ter esta se casado com um rapaz de origem inferior, fora do círculo social da família, é transferido para Úrsula. A recusa incondicional de Úrsula em se casar com o Comendador, preservando seu amor por Tancredo, coloca em movimento o desfecho trágico previsível. É a partir da construção de conflitos familiares, exacerbados pelo triângulo amoroso — portanto, motivados por paixões soberbas —, que a obra de Maria Firmina vai se desenhar em direção à tragédia romântica.</p>
<p>Maria Firmina, munida de rigoroso estilo, sente-se à vontade para falar daquilo que lhe interessa e que lhe dói na pele. São os frutos doloridos de vivências de mulher negra. Sua capacidade de ir além de si a credenciou para tratar de assuntos de interesse social, trazendo o negro para a ribalta, ao lhe dar voz, sentimentos e memórias. É um jogo concomitante de amor e ódio, de escravidão e liberdade, e, acima de tudo, da consciência de que é nosso direito inalienável podermos usufruir do nosso corpo e da nossa alma. O corpo, na visão de Maria Firmina, foi aprisionado; a alma, jamais. Afinal, ninguém tem o poder de escravizar nossa mente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Pequena coreografia do adeus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Sep 2022 12:00:36 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO</strong></h1>
<p>O novo romance de Aline Bei, <em>PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS</em>, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado <em>O Peso do Pássaro Morto</em>. Porém, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, Aline Bei assume a poética como voz de protesto para retratar a vida de uma menina presa ao abandono afetivo. Esse manejo soberbo da poesia como veículo de emoções e síntese de experiências parece ser apenas um pretexto para a autora esgrimir sua exuberante literatura. No entanto, logo percebemos que sua escrita se alimenta de aguçada sensibilidade para retratar os mais imperceptíveis movimentos que compõem o terrível painel de dores. Aline Bei cria o vazio e nele faz sua protagonista existir.</p>
<blockquote>
<h2>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais.</h2>
</blockquote>
<p>Basicamente, a trama se estrutura no tripé da família tradicional: o pai, a mãe e a filha. Mas há, sem dúvida, nessa tríade, material orgânico de sobra para compor a trama existencial do romance. E Aline Bei dá o tiro fatal no desfecho de sua fábula, ao se dobrar momentaneamente à autocomplacência. No apagar das luzes, depois de tudo o que lhe aconteceu, só resta à protagonista desfraldar a bandeira da compaixão. Em se tratando de ser humano que carrega histórias que o fragilizam, não há como colocar as relações familiares no cadafalso do simples julgamento. A luta perene cansa. Será necessário, em algum momento, depositar as armas.</p>
<p>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais. Diante do rosário de agressividades emocionais e negligências afetivas, ela tenta compreender o que está acontecendo. Busca mudar sua história, construindo um relacionamento possível com a mãe. Mas, a cada fracasso, mergulha na sua pequenez.</p>
<p>Sobra-lhe o pai, de quem se aproxima na esperança de estabelecer compensações de vazios afetivos. Mas também pouco encontra do afeto seguro que busca. E, se encontra, é tão fugaz, que sequer há tempo para desfrutar.</p>
<blockquote>
<h2>É assim que a protagonista de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</h2>
</blockquote>
<p>Resta-lhe insistir na quimera de que as coisas podem, sim, melhorar. Mas suas esperanças são abatidas em pleno voo com a separação dos pais. O pai, ainda um ancoradouro de pequenas afeições, ao abandonar a mãe, acaba se distanciando da filha. Pelo menos, esta é a sensação que toma conta de Júlia. Tudo se desmorona, não há mais com o que sonhar. O único passo a ser dado é ir em direção à vida adulta. É a fuga esperada por anos. Fugir do que ela chama de casa e que jamais será um lar.</p>
<p>A trama de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, de espinha dorsal simples e efetiva, se atém a um relato de vida. Não há tensões narrativas, não há desdobramentos de ações que retroalimentem conflitos, não há armadilhas ao longo do caminho. O que há é apenas o que a própria vida oferece.</p>
<p>Ao se limitar ao cotidiano de uma menina que se reflete nas ações dos adultos como espelho de busca de si mesma, a autora nos disponibiliza a visão sensível da dor do abandono sistemático. É assim que a protagonista se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</p>
<blockquote>
<h2><em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se despedir.</h2>
</blockquote>
<p>Nesse sentido, para entender o que acontece, Júlia se utiliza da poderosa voz poética — que a autora tão generosamente lhe oferece — como arma de grito, como ponto de compreensão. À sua maneira, Júlia procura mitigar as dores do fracasso cotidiano. Recusa-se a entrar na fria câmara da desesperança. Vai desenvolvendo a consciência de que a dor, acariciada pela poesia, será sua companheira inseparável.</p>
<p>A questão que se coloca é muito simples. O que uma criança indefesa pode fazer em favor de si mesma? Qual sua capacidade de mudar o destino que lhe é imposto por erros alheios? Parece não haver escolhas para Júlia. Nem em sonhos. Diante da perversa frieza da mãe e da autoindulgência do pai, não há pedras disponíveis para refazer o caminho. A família já está constituída na sua dinâmica destrutiva, tendo no centro da centrífuga emocional uma criança desamparada.</p>
<p>À medida que a narrativa avança, fica claro que Júlia vai desistindo da mãe. No entanto, ela reluta — posto que não se abandona impunemente uma mãe, seja quem ela for. Nesse diapasão emocional, sempre caberá um pequeno espaço para novas tentativas. <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se concretizar, mas que, sabe-se, em algum momento da vida, fará seu último gesto.</p>
<blockquote>
<h2>A diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance.</h2>
</blockquote>
<p>A precisão de linguagem com que Aline Bei desenha os movimentos internos da pequena protagonista chega a ser assustadora. A autora demonstra real intimidade de quem conhece os sulcos de dores que marcaram a pele e a alma da criança Júlia. Neste sentido, trago para esta resenha um pequeno trecho que demonstra como Júlia, sem o saber, no seu desespero, busca manter o frágil elo afetivo que a mantém ligada ao pai — que, ausente, ainda é seu ponto futuro na busca por afeto. Há uma possibilidade; sua intuição a alerta. Diz Júlia: “<em>quando meu pai fosse embora, eu sentaria naquele sofá incontáveis vezes apoiaria meu copo d’água na sombra do seu copo de cerveja.</em>”. O afeto que se refaz no desejo transformado na sua mais pura manifestação poética.</p>
<p>Mas vamos ao que efetivamente logo de início surpreende o leitor. O formato impresso de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>. Sua diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance. O visual tem um impacto peculiar e efetivo na leitura. É a distribuição de palavras ao longo da página que determina como vamos ler, como vamos nos sentar para ler, como vamos sentir o peso de cada emoção metaforizada, com que velocidade caminharemos sobre as páginas. Há uma teatralidade corporal nas palavras que vai além da simples semântica. Algumas se exibem solitariamente, outras apenas se acomodam diante dos nossos olhos, outras se apequenam, reduzindo-se a sua frágil autoestima, outras ainda bradam, desrespeitando a pontuação que, aliás, é de uma deliciosa rebeldia. E há as que se escondem de si mesmas, cabendo ao leitor decifrar suas intenções.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, o que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto.</h2>
</blockquote>
<p>Reforçando, a diagramação tem um efeito decisivo na relação emocional do leitor com a história narrada. Referindo-nos ao teatro, é como se as palavras se condicionassem a marcações antecipadamente ensaiadas, com o objetivo de explicitar para o leitor certas reações e ações da personagem. A autora distribui pelas páginas suas “explicações” interiores, fingindo camuflar seus sentimentos, disfarçando o que ela pensa sobre o que está dizendo. Há uma contemporaneidade estupenda nessa proposta diagramática.</p>
<p>E, por fim, a grande surpresa fica por conta do tom poético, levado, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, a surpreendentes extremos. O que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto, perpetrando uma manipulação perversa das sensações do leitor. É tão hábil, que o exemplo dado acima — quando a ausência do pai, simbolizado no copo de cerveja, se transforma numa simples sombra — nos remete imediatamente à incômoda mistura de abandono, saudade e esperança. Na poesia de Aline, tudo leva ao real. Esse estilo de fazer poesia traz prazeres renovados ao leitor, que se coloca diante de uma prosa contaminada por múltiplos sabores sensoriais.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais uma grata surpresa, que nos faz acreditar que a literatura brasileira atual esteja produzindo muito material literário de grande resultado artístico. Pensando em Aline Bei, só nos resta declarar que já estamos esperando pelo próximo projeto. Mas, sem ansiedade. Afinal, artista não constrói para si linha de produção. Então, cabe ao leitor continuar a degustar outras literaturas nacionais, enquanto espera por mais uma flor desse profícuo Lácio.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Ao pó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Aug 2022 12:00:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA</strong></h1>
<p>Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor emoções genuínas. No caso do romance <em>Ao Pó</em>, por tratar da temática do abuso, os desafios aumentam. Como trazer para as páginas a pungência de ato tão vil? Nesse sentido, coube à autora a coragem e a sensibilidade de trilhar os passos da dor do abuso, até levá-la às últimas consequências. Por mais que se espere, não há espaço para a compaixão, posto que o ato jamais poderá ser desfeito. Este talvez seja o grande nó emocional. O abuso é um crime que não tem retorno. A vítima percorrerá seu caminho, levando consigo a sua história.</p>
<blockquote>
<h2>Ir embora significará fugir do inferno.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia, a protagonista-narradora, após viver uma infância de abusos praticados pelo tio — que depois passaria também a abusar da irmã mais nova, Aline —, realiza o que sempre sonhou: ir embora de sua terra natal, Tenente Portela, no Rio Grande do Sul. E ir embora significará fugir do inferno. Mas aqui o romance assume um peso extra — a culpa que Sofia levará consigo por ter deixado para trás, ao alcance do lobo, a irmã menor.</p>
<p>Essa é a relação umbilical que o romance <em>Ao Pó</em> estabelece entre as irmãs: a dor de Sofia passa necessariamente pela dor de Aline, por quem Sofia se sente responsável. Sofia é a mais velha, tem uma compreensão imediata do que está acontecendo, e, por isso, tem condições de manobrar as investidas do tio. Diferente da irmã, de alma e corpo indefesos, ainda necessitando de amparo. O fato de ter deixado Aline exposta ao perigo fez com que Sofia mergulhasse no poço da culpa. Não bastasse a culpa original, que impregna a psique de quem sofre abuso, agora essa culpa por ter abandonado a irmã à própria sorte. A dor se concretiza no dia a dia com a ruptura da relação entre as duas, fortalecendo primorosamente a musculatura narrativa do romance.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na busca sempre desesperada por soluções libertadoras, é comum que cada vítima tenha comportamentos singulares perante a memória do abuso. No entanto, as marcas parecem se repetir no corpo e na alma de todas e de todos, indistintamente. Nesse sentido, o que se espera de Sofia é o máximo que ela pode oferecer. E a autora é muito cuidadosa com sua protagonista, acompanhando seus deslizes e seus desesperos, contudo, sem abandoná-la. Esse é o cuidado criativo que Morgana Kretzmann reserva para sua criatura — evita julgá-la.</p>
<blockquote>
<h2>É esse distanciamento entre as irmãs, montado pela autora de <em>Ao Pó,</em> que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</h2>
</blockquote>
<p>Essa postura autoral fica clara na decisão da protagonista de largar tudo e sumir no mundo. Sofia, ao abandonar Tenente Portela para refazer sua vida no Rio de Janeiro, dá o passo decisivo na tentativa de reconstruir seu passado. No entanto, ao levar consigo a culpa pelo abandono da irmã, dá-se um fato curioso. O embate não ocorre diretamente com o abusador, posto que Sofia se movimenta sempre na busca silenciosa pela irmã. Mas as notícias chegam apenas em pequenos ecos desconexos que reforçam o cruel distanciamento entre as duas. É esse distanciamento, estrategicamente montado pela autora de <em>Ao Pó</em>, que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</p>
<p>Cabe aqui mais uma observação a respeito da arquitetura dramática do romance <em>Ao Pó</em>. Não é a autora quem decide o destino de sua personagem. Em estilo ágil, às vezes feroz, sempre límpido, Morgana não dá conta de domar Sofia, uma vez que Sofia já vem construída. A protagonista escapole do controle da autora e impregna as páginas do romance com sua existência de dores e suas buscas por um pouso que sabe nunca existirá. Não foi a autora que comprou a passagem da protagonista quando esta decide ir ao encontro do seu destino. Nem a Carlos Ilhas, o amor perdido, é autorizado tomar qualquer atitude em relação à vida de Sofia. As atitudes de coragem da protagonista são o ponto de mobilidade da trama em direção a seu clímax.</p>
<blockquote>
<h2>A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia repete sua dinâmica de desconstrução pessoal na forma como ela se aproxima dos homens. Parece que vai catando cacos de vida para criar a coragem da aproximação. Seus envolvimentos afetivos sempre perpassam pela insegurança de ter que ser aceita plenamente, e ser aceita indica que as relações não passem apenas pelo corpo. Esta condição de supremacia do afeto sobre o desejo molda suas experiências de vida.</p>
<p>Em paralelo a um cotidiano que flui de forma tão conturbada, Sofia busca entender seu distanciamento com Tenente Portela. Esse distanciamento estampa-se em suas memórias afetivas pelo silêncio acusador da irmã. Silêncio que a oprime, e contra o qual sente-se impotente. A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Ao Pó</em> permite que a protagonista busque reparar sua história. Mas há reparação?</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. Diante de tantos vazios preenchidos por dores, não resta a Sofia senão dar o último lance. A personagem não pode ficar parada no tempo. Não faz parte do seu <em>modus vivendi</em> entregar-se à tirania do destino. Aquilo que pertencia à fantasia, enfim, vai se concretizar, pois não cabe a compaixão como fonte de reconstrução. E Sofia precisa estar forte e pronta para a última reparação. Vai em busca dela, mesmo sem saber o que a espera. Na ficção, assim como na vida real, nada pode ficar em aberto. Temos que estancar nossas fontes de dor. E é o que Sofia acaba fazendo, ao dar seu derradeiro passo — vai ao encontro de sua vida perdida.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Suíte Tóquio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jul 2022 12:00:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE</h1>
<p>O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, como é possível atuar em tantos espaços de igual para igual com outros gêneros, sem comprometer o exercício da maternidade? Fernanda, uma das protagonistas, quer ser mãe, quer ser esposa, mas também quer ser ela mesma. Para tanto, precisa estar liberta dos rótulos femininos a que está previamente condenada. Estar disponível para buscar outros prazeres, sonhar com outras conquistas, dar-se a chance de desfrutar de outras vivências. E como bem nos mostra Giovana Madalosso, não é fácil reconstruir-se dentro dos padrões modernos do que é ser mulher. A luta é renhida.</p>
<p>Em <em>Suíte Tóquio</em>, Fernanda, portanto, vai se colocar como a representante das mães que querem antes de tudo ser pessoas disponíveis para as oportunidades da vida. E nessa busca pela ascensão profissional, um dos principais símbolos modernos da libertação feminina, Fernanda se arma de toda uma estrutura para que sua filha se sinta segura e amada. Mas o que mostra mesmo este delicado romance, de uma fluidez de estilo e riqueza de metáforas e ironias, é que as coisas não são tão fáceis assim. Chega o momento, infelizmente, em que a mulher é obrigada a recuar.</p>
<blockquote>
<h2><em>Suíte Tóquio</em> abre discussões sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher moderna.</h2>
</blockquote>
<p>A narrativa, habilmente armada, se desenvolve a partir de dois pontos de vista, em que as opiniões são democraticamente divididas, cabendo a fiel alternância de capítulos entre a narradora Fernanda, a patroa, e a narradora Maju, a babá. Ou empregada doméstica. Enfim. Aquela mulher desprovida de família e de segurança financeira e emocional, vinda do interior do Paraná, que se estabelece na capital São Paulo como trabalhadora doméstica, se submetendo às exigências, nem sempre bem-intencionadas, das patroas.</p>
<p>Ao aceitar um alto cargo numa produtora de filmes, Fernanda se vê no dilema entre recusar para poder estar mais perto da filha e do marido, ou aceitar e assim perseguir sua ambição de ascensão profissional. Felizmente, e aqui está a assertividade feminina moderna, ela aceita encarar o desafio, o que a leva a incontáveis viagens, reuniões e compromissos que a ausentam com frequência do lar. Neste ponto, abrem-se as discussões, tão familiares a nós, sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher inserida em uma contemporaneidade fluida e impermanente, ainda carregada dos odores machistas.</p>
<blockquote>
<h2>À medida que vamos avançando na leitura, nos deparamos com o que importa para a autora de <em>Suíte Tóquio: discutir a maternidade.</em></h2>
</blockquote>
<p>Para aceitar a proposta do novo emprego, Fernanda se apoia em dois pilares favoráveis. Seu esposo, Cacá, sempre companheiro, sem emprego fixo, portanto, sustentado, sem conflitos, pela mulher; e sua já trabalhadora doméstica Maju, a quem propõe um polpudo salário para que trabalhe vinte e quatro horas por dia, folgando apenas um domingo por mês. A indecorosa proposta de Fernanda a Maju evidente abre mais uma ferida nas já promíscuas relações socioeconômicas impostas pelas classes superiores.</p>
<p>Diante da proposta da patroa, Maju vai passar pelo mesmo dilema: entre aceitar uma “ascensão profissional”, tendo que sacrificar sua relação com o namorado, ou recuar e se manter presa às rotinas já estabelecidas. Fica claro que a realidade feminina moderna, baseada na independência financeira, está submetida a sacrifícios. Esta é a tônica da narrativa. No entanto, à medida que vamos avançando na leitura, vamos nos deparando com o que realmente importa para a autora de <em>Suíte Tóquio</em> — finalista do prêmio Jabuti 2021 com este belo romance — discutir: a maternidade.</p>
<blockquote>
<h2>Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho.</h2>
</blockquote>
<p>Parece-nos que a mulher, e isto está evidente hoje em todas as áreas sociais, inclusive nos costumes e maneira de se relacionar com o sexo que a atrai, continua presa ao velho dilema da maternidade. A mãe não tem como terceirizar certas responsabilidades, certos afetos, certos cuidados, sob pena de colocar em risco a formação emocional do filho — eis a estrutura burguesa de maternidade! E a busca pela equação perfeita é o desafio que Fernanda coloca para si como mãe, esposa e profissional. É um jogo de xadrez que está pronto, a qualquer instante, para dar o xeque-mate.</p>
<p>Por uma feliz decisão narrativa, Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho, neste caso, pelo desaparecimento. A filha Carol é raptada por Maju, que resolve abandonar tudo e levar consigo a sua <em>Picochuca</em>, por quem nutre profundos e afetuosos sentimentos maternos. Ela que, por infortúnios da vida, não pôde ser mãe. Parece-nos viável concluir que se trata, a seiva emocional deste romance, de uma luta entre maternidades, quando Giovana Madalosso, numa feliz solução narrativa, afunila a problemática.</p>
<blockquote>
<h2>O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir.</h2>
</blockquote>
<p>Apesar da segura armação do enredo, <em>Suíte Tóquio</em> navega por mares agitados, por temáticas espinhosas. Mas dispondo de ferramentas estilísticas afiadas, a autora, como verdadeira artista que é, vai proporcionando ao leitor um delicioso passeio literário que flui ao sabor dos sopros criativos, garantindo os prazeres a quem aprecia a boa leitura. Este é o grande trunfo da escritora. Oferece ao leitor uma arte completa, na sua concepção e na sua execução.</p>
<p>Em suma. O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir. Por isso indicarmos este romance fundamental para entender um pouco mais do papel da mulher dentro do hoje complexo sistema socioeconômico, principalmente ela que já ocupa cada canto desse imenso espectro social que compõe a agitada sociedade moderna. E é certo, e é conclusivo. Para onde ela for e caminhar, terá que levar não o estigma, mas o privilégio de ser mãe. Esta é a conquista que cada mulher-mãe terá que buscar. Ser mãe com independência.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Copo Vazio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jul 2022 12:00:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO  Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO</strong></h1>
<p><strong> </strong>Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único plano-sequência. Não há como abandoná-la. Virar-lhe as costas. E ao fechar o livro para um descanso, um cafezinho, sabemos que, ao retomar a leitura, ela estará no mesmo lugar, à nossa espera, para continuar a nos contar sua história de amor desencontrado. Iremos nos comover com sua incompleta trajetória amorosa (a vida profissional é perfeita), o vazio expandindo-se através do copo que reflete as angústias de uma mulher que simplesmente quer amar e ser amada. Essa é a busca quase obsessiva de Mirela. Apenas ter alguém com quem dividir o cotidiano.</p>
<p>Quando estamos amando, tudo parece fluir em outro ritmo, como se uma redoma de felicidades cambiantes nos envolvesse. Mas, ao não sermos correspondidos, a certeza — e a força — desse amor se esvai. Aos poucos distanciamo-nos dele, resolvemos nossas dores e logo estaremos prontos para recomeçar a busca por um novo amor, em uma nova relação. Não é este o caso de Mirela.</p>
<blockquote>
<h2>Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro.</h2>
</blockquote>
<p>Ela pode até iniciar outros relacionamentos, mas o que permanece é o amor antigo, não correspondido. Ocupando sua mente e coração. Enchendo-a de dúvidas. De esperas e buscas angustiantes. Por mais que ela tente e queira, não cabe outra tentativa de amar. Volta sempre ao mesmo ponto. Quem sabe no próximo encontro tudo será diferente. Ele voltará inteiro para ela. Esta submissão ao improvável amor do outro a exaspera. E exaspera o leitor, que aos poucos perde a esperança de torcer por um final feliz. E é neste ponto que a personagem nos coopta e nos comove. Ela não deixa de acreditar na possiblidade real do amor do outro por ela. E é por acreditar, que ela não desiste.</p>
<p>A eficiência da estrutura narrativa fica clara quando Natalia Timerman vai além na sua proposta. Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro. Percebam a volatilidade dos sentimentos, que nos deixa perplexos e atarantados.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Copo Vazio</em>, temos a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo.</h2>
</blockquote>
<p>Mirela é uma arquiteta bem-sucedida em busca de um relacionamento que ela vai encontrar, incentivada pela irmã, nas redes sociais. Aqui o romance <em>Copo Vazio</em> já apresenta uma situação bem ousada. Não vamos a festas e a lugares badalados para encontrar nossa cara metade. A internéti está em nossos celulares para nos oferecer um cardápio de amores.</p>
<p>Mirela começa um relacionamento promissor com Pedro, o príncipe alto, loiro, lindo de morrer, sonhado por tantas mulheres&#8230; Mas é um príncipe afetivamente escorregadio! E é aqui que os problemas começam.</p>
<p>Por mais que Mirela tente segurá-lo, Pedro desliza por entre seus dedos, na calada da madrugada, sem que ela sequer tenha tempo de perguntar por que ele está indo embora. De novo.</p>
<p>É a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo. Em algum momento, um movimento inesperado, alheio à compreensão de Mirela, fará com que tudo saia do eixo. O que torna, paradoxalmente,<em> Copo Vazio</em>, um romance tão cativante quanto angustiante.</p>
<blockquote>
<h2>Copo Vazio não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres.</h2>
</blockquote>
<p>Amparada por um estilo limpo, escorreito, pendular e preciso, Natalia Timerman edifica a estrutura da narrativa em dois tempos, o agora e o antes, alternando os capítulos, como se fossem espelhos colocados uns diante dos outros, numa projeção sem fim de encontros e não encontros, presenças e não presenças. Resta saber, e aqui nos omitimos, quem vencerá esse jogo.</p>
<p>Em suma. <em>Copo Vazio</em> se coloca em um patamar literário reservado aos grandes romances nacionais contemporâneos, reforçando a grata surpresa da cada vez mais vigorosa literatura feminina ocupando os espaços literários sisudos construídos por homens de letras. E não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres. Pelo contrário. É um romance que deve ser lido por homens. Primeiro, para conhecer bem de perto os sutis movimentos de uma alma feminina em constante busca de si e do outro. E depois, porque homens também buscam amar e ser amados. Afinal, assim como fazer literatura, amar apaixonada e até obsessivamente não é privilégio de gênero.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Pátria Armada, Brasil!</title>
		<link>https://escritorgerin.com.br/patria-armada-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 12:00:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>PÁTRIA ARMADA, BRASIL! Houve um tempo em que o governo brasileiro instituiu a Campanha do Desarmamento, amparado no Estatuto do Desarmamento, elaborado em 2003. Quem possuísse irregularmente uma arma tinha duas opções. Ou registrar seu porte, ou entregar a arma, de boa-fé, mediante indenização, às autoridades. Foi um sucesso. Previa-se a entrega de 80.000 armas, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>PÁTRIA ARMADA, BRASIL!</strong></h1>
<p>Houve um tempo em que o governo brasileiro instituiu a Campanha do Desarmamento, amparado no Estatuto do Desarmamento, elaborado em 2003. Quem possuísse irregularmente uma arma tinha duas opções. Ou registrar seu porte, ou entregar a arma, de boa-fé, mediante indenização, às autoridades. Foi um sucesso. Previa-se a entrega de 80.000 armas, no entanto, dois anos de campanha e o Exército Brasileiro destruiu mais de 400.000 armas de fogo.</p>
<p>Essa atitude perante o desarmamento como um instrumento de pacificação da sociedade brasileira contrasta sobremaneira com as atitudes do atual governante. O incentivo à compra de armas não tem precedentes em nossa história, a ponto de se vender a falaciosa ideia bíblica de que Jesus também era a favor do armamento. O culto às armas sobrepõe-se ao culto à fé.</p>
<blockquote>
<h2>As estatísticas de mortalidade por arma de fogo nos aproximam dos índices de uma Guerra Civil!</h2>
</blockquote>
<p>A ideia de que cada cidadão teria que ter uma arma de fogo em casa como instrumento de paz e de proteção está levando o Brasil a aumentar seus já abismais índices de mortalidade. As estatísticas estão aí, nos alertando. Elas nos aproximam do patamar de uma Guerra Civil.</p>
<p>O mais assustador é presenciarmos o chefe (não líder) maior, a quem caberia dar exemplos de civilidade e bom senso, fazer a apologia da arma como um item pessoal de primeira necessidade. Como autoridade máxima, a quem cabe elaborar políticas públicas de boa convivência social, Bolsonaro tem suas responsabilidades pela escalação da violência no Brasil.</p>
<p>Dito isto, nos remetemos ao ocorrido em Foz de Iguaçu, quando um militante do PT, Marcelo de Arruda, foi morto por causa da temática petista de sua festa de aniversário. Aqui entramos em outra rotação de violência. Com a proximidade das eleições, o acirramento político coloca em risco pessoas que manifestarem publicamente suas posições políticas.</p>
<blockquote>
<h2>Exaltar a ideia de uma pátria armada Brasil é incentivar a violência.</h2>
</blockquote>
<p>Mas que fique claro. Polarização só existe quando as duas partes estão dispostas a pelejar por suas posições. Não é esse o caso. A violência é estimulada apenas por uma das partes. Para que tal afirmação seja certificada, conclamo, de forma isenta, a analisarem os comportamentos dos dois candidatos postulantes ao cargo de Presidente do Brasil a respeito do assunto. Será a escolha entre o risco de aumentar a violência, exaltando a Pátria Armada Brasil, ou uma volta à civilidade, retomando a vitoriosa Campanha do Desarmamento.</p>
<p>O desejado é que os brasileiros possam expressar suas opiniões políticas, religiosas e futebolísticas sem que para isso precisem temer a visita de um agressor. Nesse sentido, é necessário que reflitamos sobre a frase de Bolsonaro a respeito do trágico acontecimento de Foz de Iguaçu. Diz ele: “<em>O que tenho a ver com esse episódio de Foz de Iguaçu?</em>”. Seria urgente, como cidadãos, buscarmos uma resposta honesta para essa pergunta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Kamikases somos nós!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Jul 2022 12:00:09 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>KAMIKAZES SOMOS NÓS!</strong></h1>
<p>A apatia do brasileiro (me incluo) diante da rasgação de dinheiro público na compra ilegal de votos, aproveitando a fome do povo — e sobre a qual o governo tem total responsabilidade —, faz de nós verdadeiros kamikazes. Estamos exercitando nosso autoflagelo econômico enquanto semeamos com nosso silêncio um rombo histórico nas contas públicas, que teremos que pagar nos próximos anos em forma de inflação, juros altos, desvalorização da moeda e desemprego. Eis o nosso suicídio anunciado!</p>
<p>Há perversidade em tudo isso. O cadáver sobre o qual dançamos é a fome de milhões de brasileiros. Sem dúvida, estrategicamente, o povo é a principal moeda eleitoral, mas não a única. Há outros setores, com forte viés político, que serão beneficiados pela fabulosa merenda, inclusive eles, os taxistas, que serão pagos para falar bem do governo a seus passageiros.</p>
<blockquote>
<h2>Implodiram de vez a lei da responsabilidade fiscal.</h2>
</blockquote>
<p>E a sociedade assiste, embasbacada (ou não?), à dança macabra do endividamento público.</p>
<p>E a sociedade assiste, paralisada, à maior compra de votos na boca da urna de que se tem notícia.</p>
<p>E a sociedade assiste, abobalhada, à oposição votando a PEC Kamikaze, presa à maldosa armadilha de não poder votar contra o povo.</p>
<p>E a sociedade assiste, incrédula, armarem um estado de emergência para justificar a ilegalidade dos benefícios sociais implementados em tempos de eleição.</p>
<p>E a sociedade vai continuar a assistir à lambança da PEC bilionária (implodindo de vez a lei da responsabilidade fiscal), sem se dar conta de que alguém (toda a sociedade) terá que pagar a conta.</p>
<p>Que sociedade é essa que se subjuga?</p>
<blockquote>
<h2>Sim, somos os Kamikases!</h2>
</blockquote>
<p>Parte dela concorda, afinal, trata-se de eleger o mito, por quem se dobram feito carneirinhos obedientes às farsas montadas nos gabinetes. Não é uma obra solitária, saída da caneta de um ditador! É uma obra funestamente engendrada às pressas, com a anuência da sociedade. Sim, porque os que não concordam e se calam também são coniventes com a barbárie que estão cometendo contra a nossa Constituição.</p>
<p>Estamos permitindo que brinquem com o nosso futuro. Caminhamos, cabisbaixos, rumo à tragédia. Sim, somos os kamikazes! Afinal, caminhamos para o abatedouro de livre e espontânea vontade! Pelo menos, por enquanto, ainda não há ninguém nos empurrando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>O parque das irmãs magníficas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Jul 2022 12:00:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A LITERATURA COMO COMPANHEIRA Para definir o romance de Camila Sosa Villada, O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS, 206 pg., Ed. PLANETA, podemos nos servir do adjetivo que qualifica, no título, as personagens da trama: magnífico. Ninguém, seguindo sua história pessoal, poderia ser mais autorizado a escrever sobre a realidade das travestis senão a própria Camila. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A LITERATURA COMO COMPANHEIRA</strong></h1>
<p>Para definir o romance de Camila Sosa Villada, O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS, 206 pg., Ed. PLANETA, podemos nos servir do adjetivo que qualifica, no título, as personagens da trama: magnífico. Ninguém, seguindo sua história pessoal, poderia ser mais autorizado a escrever sobre a realidade das travestis senão a própria Camila. Sua voz terrivelmente límpida, e ao mesmo tempo lúdica, apropriando-se de uma linguagem dançante, desprovida de elementos depressivos, torna-se a ferramenta ideal para tratar de temática tão delicada quanto merecedora de atenção. São inúmeras as histórias de travestis que circulam de forma invisível pelas ruas das cidades e se tornam visíveis apenas nos noticiários, quando seus corpos, estirados ao chão, tornam-se alvo de curiosidade, jamais de horror.</p>
<p>O romance é narrado na primeira pessoa, fazendo da narradora a testemunha onipresente de cada vivência tirada da cumplicidade de mulheres desprotegidas que encontram nas companheiras seu ponto de equilíbrio. Afinal, é preciso sobreviver noite afora para chegar ao dia seguinte. Mesmo sabendo que nem sempre se tem a certeza de que o próximo sol brilhará.</p>
<blockquote>
<h2>Confiantes, caminham em direção a O Parque das Irmãs Magníficas, sabendo que lá as espera mais uma noite de incertezas.</h2>
</blockquote>
<p>O palco glamouroso da narrativa é um parque (<em>O Parque das Irmãs Magníficas</em>) — único lugar seguro onde elas podem ser procuradas para vender prazeres (alguns realmente prazerosos, outros sulcados pela navalha do medo). No entanto, a protagonista do romance é a própria vida, com sua nobre missão de representar seres que teimam em viver em um mundo que os afasta do convívio dito “normal” da sociedade. As travestis agem com a certeza de que levarão para a sepultura suas carnes machucadas pela dor da rejeição e do abandono. No cotidiano, não passam de imagens anônimas que se impregnam dessas dores, assumindo corajosamente o destino que lhes é imposto. Quando é chegada a hora, caminham confiantes em direção ao Parque das Irmãs Magníficas, sabendo que lá as espera mais uma noite de incertezas.</p>
<p>Um fenômeno que está ocorrendo no mundo, e não poderia ser diferente nas artes, em específico na literatura, é o poder das vozes das minorias querendo se fazer ouvidas. E, talvez, nos parece, a literatura seja o porto de salvação encontrado por Camila como forma de construir para si parâmetros sociais de vida digna. E, por que não, vida saborosa. Nessa busca, Camila Sosa Villada acaba encontrando dentro de si o talento germinal que a levou, como escritora, a alçar voos seguros para fora de si e de seus esconderijos. Foi para o mundo para ser aplaudida.</p>
<blockquote>
<h2>O que é narrado em <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> absolutamente não pertence à ficção.</h2>
</blockquote>
<p>Pode-se falar em redenção para a protagonista? Mas&#8230; redenção do quê? De um direito que sempre foi seu, o de viver? Será que é preciso proclamar que a vida plena está disponível para todas e para todos? Falamos aqui de atos heroicos. Pois, mesmo sabendo das dificuldades em encontrar forças para ir adiante, há sempre a luta cotidiana para afastar dos caminhos os infortúnios. É assim que a autora constrói um heroísmo para suas personagens. Mas é um heroísmo que passa longe das ilusões glamorizadas. O que é narrado em <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> absolutamente não pertence à ficção.</p>
<p>Outra característica a ser ressaltada na literatura de Camila Sosa Villada é sua proximidade, diria promíscua, com a literatura sul-americana. É a linguagem que se constrói por meio de mundos puramente pessoais, de fluidez encantatória, onde a carne transita à frente da alma, abrindo caminho para que esta se reproduza em cada contato com a magia da linguagem.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> se transforma, para o leitor desavisado, numa surpresa.</h2>
</blockquote>
<p>E uma das reconhecidas forças dessa literatura fantástica são as imagens que brincam com cada palavra escrita. São elas, as imagens, que fazem as palavras alçarem voos para além da realidade vivida. Haja vista a personagem María, a Muda, transformada em pássaro para se fazer poeticamente indefesa e ao mesmo tempo liberta de seu inegociável destino. Há também a incansável Encarna (nome carregado de imagens), mulher que chegará perto de completar quase duzentos anos de vida, acumulando paciência e sabedoria. Camila se apodera dessa imagética para confirmar a ousadia do seu estilo, reafirmando o inconformismo de linguagem tão típica da nossa literatura sul-americana, e fortemente arraigada na literatura de língua hispânica. Camila Sosa torna-se uma expoente dessa tradição.</p>
<p>Em suma. <em>O Parque das Irmãs Magníficas</em> se transforma, para o leitor desavisado, numa surpresa. Ele é convidado, sem chances de recusar, a fazer parte das dinâmicas cotidianas das travestis que têm a capacidade malabarística de esconder os sofrimentos nas alegrias. Talvez esta seja a grande solução humana à disposição das personagens de Camila Sosa. São, acima de tudo, seres que transitam pela invisibilidade como forma de transformar suas vidas em uma grande festa. E isso só é possível porque a tragédia já está anunciada.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Até tu, Biblioteca Nacional!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Jul 2022 12:55:07 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[armas e livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ATÉ TU, BIBLIOTECA NACIONAL! Diante de tantas lambanças ideológicas a que o país tem se submetido nos últimos tempos, agora mais esse comportamento disfuncional da Biblioteca Nacional, na sua decisão constrangedora de condecorar anticelebridades do livro. A atitude da Biblioteca apenas vem confirmar os tempos estranhos em que vivemos. Em uma ficção — já que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>ATÉ TU, BIBLIOTECA NACIONAL!</strong></h1>
<p>Diante de tantas lambanças ideológicas a que o país tem se submetido nos últimos tempos, agora mais esse comportamento disfuncional da Biblioteca Nacional, na sua decisão constrangedora de condecorar anticelebridades do livro. A atitude da Biblioteca apenas vem confirmar os tempos estranhos em que vivemos. Em uma ficção — já que estamos falando de livros —, esse acontecimento não caberia em qualquer enredo. Soaria falso, forçado, inverossímil. O que deu na cabeça dessa gente?</p>
<blockquote>
<h2>A Biblioteca Nacional demonstrou sua capacidade cínica de desfigurar nossa verdadeira cultura.</h2>
</blockquote>
<p>O Brasil perdeu-se em si mesmo. Suas lógicas naturais, baseadas no bom senso e nas experiências da boa convivência cidadã, se perderam na loucura de um governo que resolveu desmontar a estrutura social, ambiental e cultural construídas ao longo de décadas. O evidente desprezo pelo país constituído transforma-se em pátrio vilipêndio. Não que sejamos um país tão civilizado. Se fôssemos, teríamos barreiras morais mais consistentes para combater tamanha sordidez, como a perpetrada pela Biblioteca Nacional, que alçou Daniel Silveira, o mesmo que quebrou a placa de Marielle, à condição de arauto da literatura e do livro. A Biblioteca Nacional demonstrou sua capacidade cínica de desfigurar nossa verdadeira cultura.</p>
<blockquote>
<h2>Arte e política não podem se misturar.</h2>
</blockquote>
<p>Como não poderia deixar de ser, houve muitas reações de intelectuais, alguns agraciados com a mesma condecoração, e que, envergonhados, se recusaram a aceitar a deferência. Nesses tempos de obscuridade, temos que fazer um exercício extra para preservar nossas biografias. Podemos incorrer na fraqueza dos louros, e é com isto que contam aqueles que armam o aliciante palco do absurdo. Nas fileiras pseudointelectuais, o que não faltam são as trombetas da vaidade.</p>
<p>A Biblioteca Nacional, parece, candidatou-se a fazer parte dos anais dos disparates, envergonhando a história da cultura brasileira. O que prova mais uma vez que arte e política não podem se misturar, porque a primeira sempre será vítima da segunda, postando-se em atitude de servil humilhação. A arte como uso político é o veneno que não precisávamos tomar.</p>
<blockquote>
<h2>Até tu, Biblioteca Nacional!</h2>
</blockquote>
<p>Não se trata de impedir que membros do atual governo sejam contemplados. Alma heroica existe em qualquer fileira. O que se discute aqui é o incompreensível despropósito de condecorar armas e não livros.</p>
<p>Enfim. É impensável o que estamos presenciando. Daniel Silveira (e outros) sendo condecorado como um prócer da literatura e da cultura brasileiras. Diante de tamanho cinismo, só nos resta declarar, trazendo o longínquo Shakespeare para o salão da Biblioteca Nacional: há algo de podre nesse vergonhoso reino do Brasil! E indo agora para os salões do senado romano, exclamemos todos: até tu, Biblioteca Nacional!</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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<p>&nbsp;</p>
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