UMA PUNGENTE AUTONARRATIVA Em seu romance O ACONTECIMENTO, a escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura em 2022, não camufla a realidade: não esconde os lugares, as datas e as pessoas que fazem parte da trama. A autora dá ao romance a versão não-ficcional de um conturbado enredo vivido por sua personagem. Se é uma autobiografia romanceada, parece…
NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques,…
O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO O novo romance de Aline Bei, PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado O Peso do Pássaro Morto. Porém, em Pequena Coreografia do Adeus,…
EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor emoções genuínas. No caso do…
OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, como é possível atuar em…
AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único plano-sequência. Não há como abandoná-la.…
PÁTRIA ARMADA, BRASIL! Houve um tempo em que o governo brasileiro instituiu a Campanha do Desarmamento, amparado no Estatuto do Desarmamento, elaborado em 2003. Quem possuísse irregularmente uma arma tinha duas opções. Ou registrar seu porte, ou entregar a arma, de boa-fé, mediante indenização, às autoridades. Foi um sucesso. Previa-se a entrega de 80.000 armas, no entanto, dois anos de…
KAMIKAZES SOMOS NÓS! A apatia do brasileiro (me incluo) diante da rasgação de dinheiro público na compra ilegal de votos, aproveitando a fome do povo — e sobre a qual o governo tem total responsabilidade —, faz de nós verdadeiros kamikazes. Estamos exercitando nosso autoflagelo econômico enquanto semeamos com nosso silêncio um rombo histórico nas contas públicas, que teremos que…
A LITERATURA COMO COMPANHEIRA Para definir o romance de Camila Sosa Villada, O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS, 206 pg., Ed. PLANETA, podemos nos servir do adjetivo que qualifica, no título, as personagens da trama: magnífico. Ninguém, seguindo sua história pessoal, poderia ser mais autorizado a escrever sobre a realidade das travestis senão a própria Camila. Sua voz terrivelmente límpida, e…
ATÉ TU, BIBLIOTECA NACIONAL! Diante de tantas lambanças ideológicas a que o país tem se submetido nos últimos tempos, agora mais esse comportamento disfuncional da Biblioteca Nacional, na sua decisão constrangedora de condecorar anticelebridades do livro. A atitude da Biblioteca apenas vem confirmar os tempos estranhos em que vivemos. Em uma ficção — já que estamos falando de livros —,…